segunda-feira, 25 de maio de 2009

Etapa 2 – fragmentos 8 ½ de fellini

- O que é esta faixa de felicidade que me faz tremer e me dá forças? Desculpem, eu não tinha entendido, não sabia, como é justo aceitar, amar vocês, e como é simples! Luísa, sinto-me como libertado. Tudo me parece bom,tudo tem um sentido, tudo é real. Como eu gostaria de saber explicar, mas não sei dizer. Pronto, tudo está de novo como antes, tudo está confuso. Mas esta confusão sou eu. Eu como eu sou, e não como eu queria ser. E não tenho medo de dizer a verdade, aquilo que não sei, que procuro e não achei. Só assim eu vivo, e posso olhar nos teus olhos fiéis sem sentir vergonha. A vida é uma festa, vamos vivê-la juntos. Só direi isso Luísa, a você e aos outros. Aceite-me se puder. Só assim podemos tentar nos encontrar.


 


 


 


 

- Não sei se o que disse é certo, mas posso tentar, se me ajudar.


 

fim

Etapa 1 – fragmentos 8 ½ de fellini

 - Como você é linda! Eu fico sem graça como um adolescente. Não acredita que transmite um fascínio verdadeiro e profundo? Por quem está apaixonada? Com quem está? De quem você gosta?

- De você.

- Chegou bem a tempo. Porque sorri assim? Não consigo saber se está julgando ou absolvendo, se está me gozando...

- Estou escutando. Você ia me falar sobre o filme. Eu não sei nada.

- Você seria capaz de começar sua vida do início? Escolher uma só coisa e ser fiel a ela... Fazer dela a razão da sua existência? Uma coisa que se torne tudo, pois a sua fé a torna assim? Você seria capaz? Por exemplo, se eu dissesse: Cláudia...

- Para que lado? Não conheço o caminho. E você seria capaz?

- Devemos estar perto da nascente. Vire aqui. Não esse tipo não é capaz. Ele quer ficar com tudo. Não sabe renunciar a nada. Muda todo dia de caminho por medo de escolher o errado. E está morrendo á míngua.

- E o filme termina assim?

- Não. Começa assim. E depois ele encontra a garota da fonte, uma das que servem água. Ela é linda. Jovem e antiga, menina e já mulher. Autêntica, solar. Não há duvida: ela é a sua salvação. Você estará de branco, com esses mesmos cabelos longos. Apague os faróis.

- E depois? Vamos embora daqui. Esse lugar me assusta. Não parece real.

- Pois eu gosto muito.

- Não entendi quase nada dessa sua história. Um tipo como o que você descreveu que não ama ninguém, não comove, sabia? No fundo a culpa é dele. O que ele espera dos outros?

- Acha que eu não sei disso? Você também é dessas que enchem...

- Você não aceita críticas, não é? Está engraçado com esse chapelão e essa maquiagem de velho! Não entendo. Ele acha a garota que pode devolver-lhe a vida e a rejeita?

- Porque não acredita mais.

- Porque não sabe amar.

- A mulher não faz o homem.

- Porque não sabe amar.

- E, sobretudo porque não quero outra história mentirosa.

- Porque não sabe amar.

- Lamento ter feito você vir até aqui. Peço desculpas.

- Que salafrário você é! Então esse papel não existe?

- Você tem razão. O papel não existe. Nem o filme existe. Não existe nada em parte alguma. Para mim, o caso poderia se encerrar aqui.


 

fim

terça-feira, 12 de maio de 2009

estrangeiro

Eu preciso dizer uma coisa. É que as coisas mudaram, sabe. Eu não rio mais de tudo, não tenho mais cabelo grande e nem acredito mais em pessoas, você acredita? Pois é, quem diria, dei agora pra ir contra o que sempre fui a favor. Mas a vida é assim né? Deve ter haver com essas mudanças que desencadeiam sofrimento exacerbado que quase sempre levam a alguma coisa muito boa depois. Eu apenas tenho me ocupado em estar nas coisas mais simples sem muitos artifícios. Tá bom, não é tão fácil não. Mas pelo menos eu me esforço, e você? Continua aí parado, andando, sei lá, mas sempre aí, com essa mesma cara, postura. Que saco isso! Me irrita, sabia? Queria que você fosse outro, diferente daquele, porque eu já não sou mais aquela. E essa não se interessa por aquele, mas por um outro, quem sabe? E mesmo sendo outro você ainda seria um pouco daquele, isso facilitaria a nossa situação. Mas não, você parou. E não me venha com a história de que eu ainda nem vi nada, de que é só impressão. Não, eu sei que não é. Essas coisas a gente não precisa conversar mais do que 1 minuto pra saber. Você continua manso. Eu odeio gente mansa. Que saco! Com as mesmas histórias, os mesmos tempos. Eu gostaria, é isso que vim te dizer, que você mudasse, alterasse, acelerasse seu tempo. Isso, pra que a gente falasse pelo menos do passado, pelo menos. O passado é tão bonito, sabe. Esses dia mesmo, estava lendo uma espécie de diário que escrevia lá pelos 13 anos, é impressionante como a dor vira outra coisa, quando é nossa, quando a gente lê, ficou bonito sabe, parecia filme, os encontros, as questões, tudo pequeno, no seu tamanho e lindo. É por isso que você não tem o direito de se materializar dessa forma comum. No presente as coisas tem de ser grandes. Eu queria você estrangeiro. Gente nova. Será que não dá pra você fingir pelo menos? Me olhar diferente, sei lá. Mudar de profissão, ter outra banda, mudar o corte de cabelo, tudo bem, eu sei que você não mora mais em santa, mas botafogo? Regredir também não dá. Botafogo só tem sinal, carros e pessoas correndo. Então, é meio isso. E é bom que você faça alguma coisa, não por mim, por você. Será que é possível? Só o cabelo pelo menos, eu prometo tentar. Pometo não. Eu vou tentar.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

domingo

- Hoje você está tão feliz. Ontem você não me parecia.
- Mas ontem era domingo.
- Como é que você sabe que ontem era domingo?
- Muito simples: ontem eu estava triste.
- E daí? Essa explicação não me parece lógica.
- Por que?
- Ainda ontem eu perguntei a você que dia era e você não soube responder...
- É que na hora que você me perguntou, eu devia estar feliz. É isso...

não costumo colocar trechos sem autoria, mas nesse caso abri excessão, se tratam de palavras enviadas por uma amiga que veste essa sensação. é tão legítimo, tão dela que era preciso que eu, ou qualquer pessoa, fizesse com que isso fosse parte de algo que pertence a um todo. hoje conversei no telefone com uma outra amiga de pouco tempo que me faz um bem, que me traz vida. percebo pouco a pouco que são essas pessoas que carregam minha vida em suas mãos, minha organicidade depende de alguns raros contáveis no dedo.

fica aqui o registro de uma menina que têm uma questão interessante com o domingo.
.
.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

questão de ego

"um homem com uma dor, é muito mais elegante"

leminski

eu não sei o porque disso tudo, mas eu prometo que vou embora quando entender. não quero solucionar, é sério, quero, quero não, preciso, preciso entender pra depois então desistir. desistir já no fim, disistir no último dia é uma boa, ninguém saberia que foi desistência, posso vibrar comigo, posso me alforriar por mim sem medo, medo nenhum de ser mais uma crise vaidosa. não sou tão vaidosa assim, vai. faz tempo que isso já foi embora, essa coisa de vaidade. mas parece que não percebe. será que dá pra entender que o que ainda está me mantém acordada, me faz insistir em ser alguma coisa. desse jeito eu acabo por desacreditar de mim. me divido e a questão é saber o que fazer com o que fica. não dá pra ficar só com essa parte, essa parte é pouco, frágil, alma pura não aguenta esse peso todo. não aguenta ir nem ficar. ficar, ficar, ficar pra que? e com o que? a gente vive pra aprender a viver, se cerca de defesas pra que tudo aparentemente doa menos, aparentemente não, realmente, tenho certeza que dói menos, tem menos vida, mas aí é outra questão, o caso é que doer dói menos, bem menos, amortece as quedas, é isso, não elimina, amortece, e agora sugerem que jogue fora tudo isso? o discurso é tão convincente que dá enjôo. enjôo de si, agora me diga uma coisa: o vômito vai pra onde? sai de onde?


"procuro nas coisas vagas ciência
(...) e a alma aproveita pra ser a matéria e viver"
.
.
.
a lua hoje merecia mais . . .
.
.
não tenho estrutura e nem sei se mereço apreciar uma lua como essa. . .

quarta-feira, 29 de abril de 2009

astrologicamente falando

(...)
"Na realidade, em todas as Eras houve dificuldade em se equilibrar os dois signos envolvidos. A humanidade passou boa parte da Era de Peixes tendo sua capacidade de análise e discernimento (simbolizada por Virgem) bloqueada por crenças impostas de cima para baixo. Quando, a partir do século XIX, o espírito científico começou a se desenvolver, daí foi Virgem que assumiu a supremacia. Descartou-se tudo o que não se podia explicar e iniciou-se um período de excessiva racionalidade e fragmentação, que resultou no surgimento em massa de doenças emocionais decorrentes da falta de conexão com algo maior (por que você acha que tantas pessoas se drogam no mundo?).

A Era de Aquário não é, portanto, uma Era que automaticamente vai nos conduzir a fraternidade, a um entendimento extraordinário de quem somos e do que o mundo é, a uma nova forma de organização, a uma descoberta sem precedentes de nosso poder mental e a um uso adequado dele. E por que não? Porque Aquário não é um signo melhor do que Peixes, assim como Peixes não é melhor do que Áries, assim como nenhum signo é melhor do que outro. Em cada Era, nós temos escolhas a fazer. A tecnologia, principal promessa da Era de Aquário, tanto pode nos levar a uma separação do nosso lado instintivo, tornando tudo excessivamente lógico e frio, como pode ser tão aperfeiçoada que nos leve a sanar os problemas que até agora criamos com o uso dela. A penetrante mente aquariana tanto pode nos levar a finalmente rompermos com antigos comportamentos danosos quanto nos trazer agitação, alienação e rebelião, sintomas já presentes atualmente. A Era de Aquário será, sem dúvida, caracterizada por uma grande mudança em relação às outras Eras, porque isto faz parte do símbolo de Aquário. Mas isto nos levará a um mundo realmente melhor? Afinal, quem tem razão: os intelectuais que prevêem um mundo frio, excessivamente racional e controlado, ou os místicos que falam em uma era de amor?

O potencial da Era de Aquário seria para que nos víssemos como uma só raça (já que até agora nosso passatempo foi nos aniquilarmos mutuamente), e, a partir disso, nos uníssemos, sendo capazes, por esta razão, de avanços inimagináveis, e de criarmos um novo sistema de vida, que rompesse integralmente com o que de negativo vivemos até aqui. Uma Era de Aquário realmente avançada também não descartaria que viéssemos a realizar um intercâmbio com outros habitantes de outros planetas, seja através do desenvolvimento de tecnologias revolucionárias, seja porque finalmente estaríamos prontos para isto. Uma Era de Aquário ‘bem feita’ teria de ter presente os atributos positivos de Leão, como a valorização do indivíduo e da criatividade, do coração e do calor, para que a sociedade não se tornasse por demais fria, mecânica e lógica. O bem estar do indivíduo (Leão) teria de ser levado em consideração tanto quanto o bem estar do grupo (Aquário), pois um não pode predominar sobre o outro sem que isto gere desequilíbrios. Só que a Era de Aquário não vai trazer tudo isto ‘de bandeja’. Nós teremos de conquistar esta ‘promessa’ positiva que está embutida nela. Estaremos sendo chamados a escolher tanto quanto fomos em outras Eras. Por exemplo, a Era de Peixes poderia ter sido muito especial em termos de compaixão, abrandamento de nossas características mais destrutivas e agressivas, e não o foi. Ao invés disso, apareceu o lado negativo de Peixes, como a cegueira, a incompreensão e a histeria (as Santas Inquisições, por exemplo).

Você talvez se pergunte o que pode fazer, como indivíduo, para que possamos realmente começar uma nova Era, um novo tempo, transpondo para o coletivo o potencial que já existe em indivíduos mais evoluídos, mas que nunca existiu em escala maior. Simplesmente desenvolva o lado positivo de Aquário. Olhe mais para o coletivo. Interesse-se mais por ele. Não veja a sua vida como limitada apenas a sua casa e às pessoas próximas. Enquanto houver pessoas miseráveis e escravizadas no mundo mesmo o mais lindo recanto com a maior harmonia poderá ser atingido. Aquário quer dizer que todos somos um povo só. A hora em que nos virmos como o povo da Terra, que é por ela responsável, aí sim estaremos entrando em uma nova Era. Sem o desenvolvimento disso, a Era de Aquário será como todas as outras, até que resolvamos mudar. A escolha será de cada um de nós. "

ando pensando muito sobre.
existe tanta coisa para além-tudo.
deve explicar alguma coisa.
o artigo inteiro é bem interessante.
tem dimensão, se distancia da escala óbvia humana e medíocre.
percebi que tenho pânico do que é médio.
é a única coisa que sei não querer.
.
.

terça-feira, 21 de abril de 2009

coresnocaio - sobre tantas pérolas

"Fico tão cansada às vezes, e digo para mim mesma que está errado, que não é assim, que não é este o tempo, que não é este o lugar, que não é esta a vida. (...)então eu não sentia nada, podia fazer as coisas mais audaciosas sem sentir nada, bastava estar atenta como estes gerânios, você acha que um gerânio sente alguma coisa? quero dizer, um gerânio está sempre tão ocupado em ser um gerânio e deve ter tanta certeza de ser um gerânio que não lhe sobra tempo para nenhuma outra dúvida..."

"Olha, eu estou te escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo o meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não queria que fosse assim. Eu queria que tudo fosse muito mais limpo e muito mais claro, mas eles não me deixam, você não me deixa"

"Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente?
Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais -por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia –qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido. Eu prefiro viver a ilusão do quase, quando estou "quase" certa que desistindo naquele momento vou levar comigo uma coisa bonita. Quando eu "quase" tenho certeza que insistir naquilo vai me fazer sofrer, que insistir em algo ou alguém pode não terminar da melhor maneira, que pode não ser do jeito que eu queria que fosse, eu jogo tudo pro alto, sem arrependimentos futuros! Eu prefiro viver com a incerteza de poder ter dado certo, que com a certeza de ter acabado em dor. Talvez loucura, medo, eu diria covardia, loucura quem sabe!”

“Ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, angústia, duas décadas de convívio cotidiano, mas ando, ando, tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essas história de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, ,veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, cara.”
.
.
.

"Pensar é ainda fuga:
aprender subjetivamente a realidade de maneira a não assustar.
Entrar nela significa viver."
.
.
.


trechos submersos do caiofernandoabreu
eu preciso de palavras que me levem embora daqui, como essas, mas sem fim.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

algo cenicamente também (ainda) não dito

Andei pensando sobre essa coisa de dizer algo. A necessidade, a urgência de dizer. Pode ser uma angústia pessoal: a dificuldade de dizer o que precisa ser dito, mas acho que não. Talvez seja o mal do século: falar alguma coisa sobre uma outra, que dá na outra, que dá na outra, que dá na outra...

Vamos lá.


Você acende o abajur do canto, apaga a luz mais forte pra criar um clima e começa a falar. Diria, por exemplo: Como você sabe, a gente, as pessoas infelizmente têm essa coisa, emoções... Talvez eu perguntasse: Infelizmente? Você continua: Seria tão bom se pudéssemos nos relacionar sem que nenhum dos dois esperasse absolutamente nada, mas infelizmente (você insiste), infelizmente nós temos emoções.

Tem uma citação do caio que é assim:
“as pessoas falam coisas,
e por trás do que falam há o que sentem,
e por trás do que sentem há o que são”.
É por causa dessa falta de controle que você diria isso, eu imagino. Essa coisa de não saber quando chegou o fundo é difícil de lidar.

Há meses que eu espero pelo momento certo, pelo texto certo. Essa coisa de expectativa só serve pra deixar a gente sem ter o que dizer na hora.
(encho o cálice de vinho) Bom, nesse silêncio eu preciso fazer alguma coisa, talvez coloque uma música ou ensaie um gesto, ou talvez não faça nada. Por um momento eu posso pensar em chegar mais perto com o coração a mil, mas você não diz nada. Eu penso num corredor escuro, e me vejo andando como uma cega que pressente o vazio, o poço que vai afundar. Penso em acender a luz, dar uma gargalhada ridícula, acabar de vez com isso. É muito fácil fingir que tudo estaria bem, que nunca houve emoções. Logo depois, um minuto depois eu penso em deixar o cálice na mesa e ir em direção a esse cara que olha pra dentro. Penso em dar um beijo. Vou desejar decifrar esse corpo com a língua, romper todas as barreiras do medo do nojo, beber todos os líquidos, sugar todos os cheiros até que a gente possa virar um só, de luzes apagadas e roupas no chão. Logo em seguida percebo que eu não serei ele e que ele não sou eu. Desejaria manter esse estado, esse desejo. Mas ele não saberá de nada se eu continuar com medo que uma palavra ou gesto destrua essa cena bem armada, em que cada vez mais mergulho em mim, nas minhas emoções, enquanto ele esfrega as mãos no joelho quase inocente e me espera terminar o que comecei.
Você continuaria ausente de tudo. E a cada manhã eu vou me olhar no espelho, notar novas rugas, certa do futuro que me espera. Não poderei voltar atrás, e sei que qualquer coisa que eu diga não vai dizer o suficiente pra me levar pro céu ou pro inferno. Mas sei também que tudo vai passar um dia, tão de repente quanto veio, ou lentamente, não importa. Só não vou saber que naquele momento exato eu teria a beleza insuportável da coisa inteiramente viva. Eu acendo o abajur do canto da sala depois de apagar a luz mais forte pra criar um clima. E finalmente, começo a falar.
uma adaptação bem livre do conto natureza viva do caio.
.

domingo, 29 de março de 2009

falta

É um estado antes de qualquer coisa doído. Não saber muito bem o que se é, o que será, e principalmente o que se quer ser. O medo é de afundar e não voltar mais, de mergulhar em si de uma maneira. Abismar-se. Não sei mais validar relações, considerar questões externas, é um lugar meu, egoísta e feio. Resolvi marcar um encontro. No que deu? Não deu, parece aversão a qualquer gesto ou ação que aflore sentimentos que venham do mundo. Quando decidi no início do ano que passou que daria uma chance pro mundo, estava era tentando me salvar dessa miséria que me torno quando aceito minha condição essencial. Eu queria poder ser como se deve, como se dói menos, mas acabou que doeu mais. Voltei cheia de cortes que não sei se saram. Voltei longe de mim e longe do que achei que havia me aproximado. Melhor, não voltei ainda, eu acho. Viajo de volta pra mim. Pessoas se perdem e largam minha mão justamente na hora em que poucas mãos me restam. Uma pessoa em especial me faz falta, as outras também, mas ela é alma pura, é de verdade. A exposição dos gêmeos me lembrou-a, a fossa pós-encontro recheada de choro exacerbado me fez resistir a uma ligação. “Você tem essa coisa de chorar...”. Ela disse uma vez, e participou de muitos acessos. Vi uma peça “Bodas de sangue”, tinha uma menina em cena que só eu e ela sabemos quem é – pra gente, é claro. E mais uma vontade de ligar... Pessoas se perdem. O menino do encontro me disse algo como: é bom pensar em que tipo de pessoa você está falando... Ele quis dizer: a gente perde o que nunca teve. Senti, no olho dele. Ele é estranho, tem um tempo diferente, mas é interessante. Uma amiga certa vez me disse que o que fazia com que ficasse por mais tempo com um rapaz era a vontade que tinha de decifrá-lo. Tem gente que “esfinge”. Não tenho muito o que falar, aliás tenho muito, por isso a dificuldade. Ontem vi um filme chamado: “Império de sentidos”, agucei sentidos, o filme me levou um pouco mais pra mim. Primeira vez que fui minha. A única coisa que tem me movido é a necessidade de sair do chão, a acrobacia é a única que permanece, ali, comigo pro que der e vier. E eu a deixei por um ano. Taí a prova de que não sou muito boa gente. Trapézio de balanço, a gente fica paralela ao teto, voando, depois se lança para os pés, a gente acredita nos pés, na capacidade das nossas pernas de nos sustentar, tanto quanto o braço, eu tremi, mas fui, acreditei. A única coisa que tem me restado é acreditar em mim, em partes de mim, até que eu possa acreditar no pacote. Por agora, acredito no meu pé, nas minhas pernas também, mas essencialmente nos meus pés. O trapézio é meu único. Meu único, não sei bem o que, mas sei que é. Senti vontade de ligar também depois dessa situação com o trapézio. Pode parecer que não ligo por orgulho, mas não é. Não ligo por estar sangrando. Por acreditar numa ligação para além da invenção de Graham Bell, por saber que ela me sabe sem que eu diga uma palavra, por não saber dizer uma palavra, principalmente por pensar que se não for agora, não será mais, nunca mais, porque no fundo nunca foi. Tenho saído muito com meus pais, acho que é uma busca de mim, uma pesquisa autobiográfica, eles são os únicos que não me deixam.

segunda-feira, 23 de março de 2009

algo que passa

É horrivel perceber que algumas relações são frágeis, de vidro barato.

Se notar ausente de todos ou quase todos que outrora eram parte de algo, parte do vazio. Quando a mudança parte de dentro, não há pedido, carta, lampejo que te faça ir contra essa força toda. Veio de dentro, desculpa, mas agora, por agora, é fundamental que seja assim. Bom, caso resolva entender, paciência se não. É por essas e outras que pessoas se perdem. Quem ficar vence o jogo. Jogo difícil, ingrato, que exclui por hora, mas não, nem nunca pra sempre, porque quem é pra ser junto, é. Sem rodeios ou questões que de tão pequenas são risíveis. Ando estafada de julgamentos, cobranças descabidas, as relações são sensíveis, supremas, quando pequenices semelhantes atordoam pode-se dizer que ali não há - naquele exato momento - ou nunca houve o essencial, a comunicação que independe do que se faça, se diga, algo que acontece, que paira, que independe de vontades, vaidades.


Que vença o que é sem rodeios.
tempo
inspiro
tempo
inspiro
tempo
inspiro

segunda-feira, 2 de março de 2009

music

"sentimos que nunca acaba de caber mais dor no coração"




.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

estado pós magia embaçada

"(...)pois são completas as coisas quando acontecem depois de anunciadas por dentro, criando um estado capaz de receber o que virá de fora.
Como um telegrama, um telefonema, um aviso qualquer previamente anunciando a chegada, para que se possa arrumar a casa, tirar a poeira dos cantos, preparar a cama, trocar lençóis, limpar pratos, poltronas, recebendo o hóspede ao mesmo tempo desejado e inevitável"
por fim:
"acabo sempre fazendo coisas para não gritar"
pra começo:
"Mas primeiro prova da terra. Depois, voa"
caio
mais tarde preciso escrever sobre o carnaval, coisas que ouvi, sínteses a respeito, não sob meu ponto de vista (pois ele anda exaustivamente embaçado), mas relatos desses "cachorros loucos" que se deixaram soltar e caíram de cabeça nessa magia emocionalmente digna de rede de segurança.
.
.
.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

um bom começo

- É que as vezes parece que não tem mais nada dentro, carol.
era só isso que eu precisava dizer.
e não disse, por não saber dizer o que realmente precisa ser dito
(que não é necessariamente o que se passa, mas sim a precisão do momento em si).
rodeio
rodeio
rodeio
até não chegar em nenhum lugar
acho que a grande questão é chegar (grande e medonha)
quando sinto o rio seco,
quando a criação não inventa mais,
bate um medo danado do fim.
parece que é a morte chegando
o ócio criativo
a dor de estar no limite
ausência de si
presença de um outro anônimo
a ignorância diante do fim
.
.
.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

mudança

existe alguma coisa aqui dentro que dói, que pulsa, me leva pra longe sem mapa de volta. ouvi dizer que ando instável, inquieta, a vida nunca foi tão difícil de agarrar. essa coisa de feito artístico, não sei se pra mim é uma questão de necessidade ou de honra, ou as duas coisas.

- porque você não pára com isso?
- se parar, eu morro.

e morro mesmo.

a escrita tem me levado embora. ela realiza e me alivia no "instante-já" denominado por clarisse. nasci para o mérito tabelado, não istantâneo. nasci para não ouvir os aplausos e vir atrás pulsante por saber no meu âmago que foi tudo culpa minha. não quero barulho por mim, nem pra mim. quero fazê-lo eu mesma aqui dentro. festa minha, comigo, sem cigarro e sem alcool. hoje, me condiciono como ferida exposta. o ator é a coisa viva em si. ando morrendo aos poucos, acho. não sirvo mais. essa morte é pra fora. ando morrendo do social, pro social. não sei se quero - se a dúvida se manifesta é porque não quero, não posso, não agora, não mais.

a literatura brasileira me espera.
sala de aula, please.
pós rabisco de um intervalo que não acontece.




.I want love.

domingo, 11 de janeiro de 2009

fato consumado.

quando pouco, basto.
(gosto mais assim. seco e pouco, como deve ser)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Um Romance não escrito - Virginia Wolf

"A vida é o que se vê nos olhos das pessoas; a vida é o que elas aprendem e, depois que o aprenderam, jamais, embora procurem escondê-lo, deixaram de estar cientes - de quê? De que, parece, a vida é assim. (...) em cada rosto a consciência. Estranho, porém, como desejam dissimulá-la! Há sinais de reticência em todos os rostos: lábios cerrados, olhos sombrios, cada uma das 5 pessoas faz alguma coisa para esconder ou anular a consciência. Uma fuma; outra lê; a terceira verifica notas num livro de bolso; a quarta fita o mapa do trajeto no painel em frente; e a quinta é que não faz absolutamente nada. Ela olha a vida.

Ah, mas minha pobre e infeliz mulher, participe do jogo - por nossa causa, dissimule!"



VW

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

claRISSE mais eu

Descobri que há muito venho me faltando. É dolorido saber-se sem si. Ausente de si. Saber que por muito tempo busquei num outro tudo que estava no lugar certo. Tudo que não me dei o trabalho de buscar. Uma fuga. É um não gostar de si. Ao espelho: um não. Esse cabelo novo me fez mais real. Mais concreta. Mais alma. Deixei de viver por cima e o baixo da vida me foi apresentado. Ainda não me adaptei, mas percebi que antes eu era pura mentira. Como pode algo ser puro e mentiroso ao mesmo tempo? Pode, porque considero puro tudo que é fruto do gesto em si, do inconsciente que te dá uma ordem, já a mentira não, a mentira é ela propriamente e maliciosa, como um trocador que rouba 10 centavos de troco. Não gosto da pureza exacerbada. Tenho medo. Pois o puro é branco, e branco mancha com facilidade. É preciso lavar com uma freqüência insuportável. Apenas 1 vez de uso. Já com o preto, podemos fingir limpeza à vontade. Se parece com a mentira. A preocupação com o português e com o vocabulário de alguém com apenas 21 anos me fazem escrever com uma racionalidade nojenta. Não me alcanço. O medo de novo. Medo do erro pra mim e por mim. Pelo menos agora estou tentando não me parar, mas minha mão as vezes respira com o meu cérebro ainda ditando. Meu corpo é forte demais pra minh' alma. Por isso tantos equívocos. Agora, corpo, se me dá licença preciso ver minha alma. Ir ao meu encontro. Saber-me. Com ou sem cabelo arrumado. Chega de escrever sobre um outro que não vem. Ele sou eu. Eu tava de féria na Bahia, mas agora eu voltei cheia de vontade de mim. Fiquei assim por causa de um outro. E o agradeço por ter me permitido tal viagem, tal volta, tal passagem. É impossível saber-se sem um passado legitimo e bem marcado. Esse apego me irrita em demasia.Só hoje eu consegui parir o feto dele. O seu filho hoje nasceu. E é diferente saber-se com um filho. Esse filho sou eu. Fui mãe e filha mas sua, sempre sua. Agora não. Tenho o mundo. Depois dessa luz o mundo pode ser meu de novo. Só meu. Me sinto livre. Preciso voar com as minhas asas. Não quero mais romancear falando do que fui. Quero ser com legitimidade. Nem sei se sei. Mas sinto, e isso me basta. Asas. Como alguém que toma um gole de água por que é o suficiente. Estou rindo. Dei pra rir. É tão bom encontrar consigo. Não consigo parar de rir. Não posso, não quero mais parar de ser.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

a quinta de virgínia

quero ser a quinta não pra chegar depois, mas pra não ser aquela que ajeita o cabelo, fuma um cigarro, fala alto ou usa maquiagem pra parecer. quero ser o silêncio, casar com ele. ser aquela que fica no canto, que acontece por uma questão de necessidade, pra não me preocupar com chegadas, pra chegar manso, sentar com calma e falar o bastante pra ser ouvida.a quinta: a simplicidade de não ser muito, nem pouco.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

água de clarisse

"Mesmo para os descrentes há o instante do desespero que é divino: a ausência do Deus é um ato de religião. Neste mesmo instante estou pedindo ao Deus que me ajude. Estou precisando. Precisando mais do que a força humana. Sou forte mas também destrutiva. O Deus têm que vir a mim já que não tenho ido a Ele. Que o Deus venha: por favor. Mesmo que eu não mereça. Venha. Ou talvez os que menos merecem mais precisem. Sou inquieta e áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor.

Às vezes me arranha como se fossem farpas.
Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto continuo inquieta é porque preciso que o Deus venha. Venha antes que seja tarde demais"


C.Lispector
adeno para o futuro (continuação, no caso de tudo isso não ser um estado presente):
"Corro perigo como toda pessoa que vive. E a única coisa que me espera é exatamente o inesperado. Mas sei que terei paz antes da morte e que experimentarei um dia o delicado da vida"


terça-feira, 14 de outubro de 2008

balão VERMElho

Foi doído ver-te tão comum,
num ônibus cheio de gente que trabalha, come e dorme,
num horário que todos se movimentam por doutrina temporal,
numa rua que nem asfalto tinha.

"A vida não é filme. Você não entendeu?"

NÃO. Você já?
Ninguém quer entender nada.
Ninguém sabe entender.

Ele diz: "quer coisa melhor do que conhecer uma pessoa que não existe?"
quero conhecer alguém que precise.

agora ele se mistura com tu, com nós.
nós: ele quer, tu queres e eu quero.
o querer é o mais ilegítimo dos verbos. em primeira pessoa então, chega a ser ofensivo. é um verbo imóvel, que paralisa. a gente quer o que ainda não têm, e provavelmente não terá, e caso tenha não quererá mais. é um prenúncio, um supiro de Deus, uma frase que antecede aquele silêncio gótico de quando parecíamos estar acabando um em relação ao outro.


"o quereres de estares sempre a fim
do que em mim é de mim tão desigual
faz-me quere-te bem
querer-te mal
bem a ti
mal ao quereres assim
infinitivamente pessoal
e eu querendo querer-te sem ter fim
e querendo te aprender o total
do querer que há
e do que não há em mim"
.querer é não se saber com
.
.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

leminskiando

o telefone tocou
me arrumei toda
pensei que era.

domingo, 5 de outubro de 2008

PARTE 2 de algo apenas

(...)

- Você é linda.
- Você, não?
- Teu corpo têm cheiro de livro novo.
- Gosta de ler?
- Gosto. Percebi que os livros escolhem a gente.
- Eu não escolhi você. Ou melhor, escolhi sim. A mulher sempre escolhe, mas se a questão fosse mesmo de escolha, e alguém tivesse me avisado, talvez a minha escolha fosse não te escolher. Talvez eu escolhesse diferente.
- Pois eu não. E nem você, creio eu. Você fala muita coisa que não pensa. Já me acostumei com a idéia de que tudo, ou quase tudo que você diz, não quer dizer, só diz por não saber dizer outra coisa. Por que esconde tanto o que sente?
- Porque todas as vezes que assumi doeu muito. E ainda dói, até hoje. Tenho dificuldade com cicatrizes. Resolvi tirar meu piercing do umbigo depois de 3 anos por mera dificuldade de adaptação a uma aproximação desse porte, e quando ele se foi, ficou um buraco que não fecha.
- Suas comparações são dignas de estudo aprofundado.
- Acha mesmo? Foi só uma tentativa de enlaçar o que não se pode tocar. Sei que isso te irrita. Mas não perco essa mania de desafiar leis gerais, mesmo sabendo que isso te irrita ainda mais.

(...)

PARTE 1 de algo que não sei

Ele deu um passo à frente, ela um passo atrás.

- Por quê?
- O quê?
- Me dá sua mão.
- Sua mão é grande demais pra mim.
- Eu te protejo.
- Por quantas horas?
- Já é alguma coisa.
- Não é nada.
- Melhor que nada.
- Melhor é nada.
- O tempo vai passar. A gente vai deixar de ser o que é.
- A gente é alguma coisa?
- Eu sinto vontade de você.
- Eu também.
- O quê?
- Sinto vontade de mim.
- Só?
- Por hora, sim. Você foi na exposição da Clarisse?
- Não.
- Vai.
- Vou.
- Ela fala de você lá. "Uma das muitas formas de entender é achar bonito".
- Eu?
- É. Você. A gente. Nos entendemos na beleza que não temos.

(...)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

definir-se e arder, isso é amar

"Pinta-se o amor sempre menino, porque, ainda que passe dos sete anos, nunca chega à idade de uso da razão. Usar de razão e amar, são duas coisas que não se ajuntam. A alma de um menino que vem a ser? Uma vontade com afectos, e um entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo conquista o amor quando conquista uma alma; porém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade febricitante, que não tivesse o entendimento frenético. O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade que o fumo não cegasse o entendimento. Nunca houve enfermidade no coração que não houvesse fraqueza no juízo. Por isso os mesmos pintores do amor lhe vendaram os olhos. E como o primeiro efeito, ou a última disposição do amor, é cegar o entendimento, daqui vem que isto, que vulgarmente se chama amor, tem mais partes de ignorância; e quantas partes tem de ignorância, tantas lhe faltam de amor. Quem ama porque conhece, é amante; quem ama porque ignora é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito, assim no amor diminui o merecimento. Quem ignorando ofendeu, em rigor não é delinquente. Quem ignorando amou, em rigor não é amante"



PAV

quarta-feira, 30 de julho de 2008

dia branco

"
Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...
Eu te prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Um pedaço de qualquer lugar...
Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...
"

sexta-feira, 4 de julho de 2008

DESABA - fo.

sobre a importância de, às vezes - ou (quase) sempre - ser menos

"caetanear" o que há de bom

estou me a vir
e tu como é que te tens por dentro?
porquê não te vens também?
caetano

quarta-feira, 25 de junho de 2008

de nós dois

é como se, metade madrugada fria, metade falta.

o frio me faz calmaria, pede coisas que há tempos ninguém ousa:
pede-me, por favor.
diz que a cama é quase sempre o melhor lugar, que a coberta, quando é humana esquenta com mais autenticidade. lembra-me coisas que me esforço o ano inteiro pra esquecer.
o frio traz a gente de volta pra gente, ou leva á um outro que também precisa de um.
nessa época do ano é bonito lembrar daquele chocolate com gosto, daquele abraço que fala, daquela mão, que daquele jeito, naquele minuto foi só sua.

lembrar do dia em que ser só não tinha graça, bom era ser dois com unidade.

quando o vento bate penso em como tudo estaria se ele não ventasse, se o tempo
fosse outro, se a palavra fosse: sim, não ou silêncio.

se lançar é ainda mais difícil quando o corpo pede calor.
calor é difícil de achar.
nem todo fogo aquece.
calor vêm da alma, é como se o sol se doasse por segundos, construindo um momento raro, sagrado, que abastece e nos coloca á postos pra vida.
uma questão de encontro de almas.
como caio já dizia:

"num deserto de almas uma alma especial encontra a outra de imediato"

é como se a vida chegasse bem perto com lucidez:
- Estou aqui. me usa, mas não abusa. ou pensa em colecionar vasos quebrados?
sobre a arte de ver o que ainda existe.
sobre não engolir a vida nem ser engolido por ela.
sobre a importância de pensar no que somos com um outro, por uma vida menos quebradiça.
sobre a arte de encontrar na vida algo tão puro e verdadeiro quanto uma canção do Roberto.

domingo, 8 de junho de 2008

estamos com fome de amor

"Vivemos cada vez mais tempo,
retardamos o envelhecimento
e estamos a cada dia mais belos
e mais sozinhos"
...
arnaldo jabor

domingo, 9 de março de 2008

arte

a arte é uma esquina da vida,
mostra-se nela o que não se pode traduzir na vida por motivos muitos.
a arte é uma droga,
é ausência
ou a presença insuportável de si.

escritos passados sobre aquela que me sonda com gosto.

sábado, 1 de março de 2008

Morangos Mofados

"Ah, fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias desesperadas, noites e noites a fio permanecerás insone, a fantasia desenfreada e o sexo em brasa, dormirás dias adentro, faltarás ao trabalho, escreverás cartas que não serão nunca enviadas, consultarás búzios, números, cartas e astros, pensarás em fugas e suícidios em cada minuto de cada novo dia, chorarás desamparado atravessando madrugadas em tua cama vazia, não conseguirás sorrir nem caminhar alheio pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele, em algum cheiro o cheiro preciso dele (...) mas sabes, principalmente, com uma certa misericórdia doce por ti, por todos, que tudo passará um dia, quem sabe tão de repente quanto veio, ou lentamente, não importa. Só não saberás nunca que neste exato momento tens a beleza insuportável da coisa inteiramente viva."

Caio Fernando Abreu

sábado, 23 de fevereiro de 2008

despe - dir

é duro se vestir pra quem se despe com outro.


tchau.

este, agora é honesto.

o vestido já manchou,
o lenço já caiu e ninguém pegou,
não quero esperar por mais.
parece que passou como as horas,
que se despedem sem esperar convite,
como se só valesse a pena por ser irremediável.
eu te fiz solução,
mas você é carente de remédio - mais que eu inclusive.
só eu fui capaz de aliviar-te quando a farmácia não servia.
eu servia,
e servia com prazer.
...e ainda sirvo sem querer,
como um escravo que não sabe o que fazer com a auforria.

domingo, 27 de janeiro de 2008

folia

"diz meu bem, o que é que você têm? diz meu bem, que eu quero ter também"

A Folia da Menina Passarim
música de Claudio Lyra, o moço que canta leve.


...

sábado, 18 de agosto de 2007

como flor

quando digo que muitas podem te servir de consolo, refiro-me a mim. nenhuma outra blusa te cairá tão bem, pelo menos a meu gosto. sabe, eu ando cansada de palavras mal postas, de canções fragmentadas, desse disse-não-me-disse, desse jogo que ninguém ganha. quisera eu ser mulher o bastante, te olhar nos olhos e dizer:

- Não vês que somos o suficiente?

- Por que de tanto atraso?

agora que o real entrou janela á dentro o lirismo desaparece sem dó. ando por lugares que cheiram a velho em busca do seu cheiro de novo. isso seria bonito se não fosse uma história mal contada. queria te escrever um poema, um trecho de Rita Apoena, que datilografa a alma feminina como ninguém - você se daria bem com ela, deveriam escrever um livro juntos - poderia também ligar-te e falar qualquer coisa que venha de dentro, assim de improviso mesmo, sem cena pronta, ando estafada de métrica, enlatado, escrever uma carta também seria autêntico, dizer coisas do tipo:

"ontem eu sonhei que me abraçava, era um abraço que me fazia ainda mais sua. eu gosto quando parece criança, quando termina uma frase sem pensar, quando me faz silêncio, quando discursa o texto que eu gostaria de ter escrito. gostaria de dizer que você quando longe, me dói."

coisas bobas mesmo,
coisa que só escreve quem se sente achada,
coisa de quem é só espera,
de quem vive pelas ruas com olhar disperso,
de quem procura um cheiro que passou.



***

terça-feira, 31 de julho de 2007

apego

Era iverno.

Mariana levantou ao meio-dia, abriu um sorriso de dar inveja ao sol e pensou em como seria bom se cada um ficasse enrolado, mergulhado em si até o momento que julgasse necessário. Ninguém melhor do que nós mesmos para entender as lamúrias da nossa alma. Alguns sábios dizem que "preguiça é revolta", se tivesse nascido em qualquer época turbulenta, seria ela a líder de uma revolução sem causa. A luta pelo nada, como toda e qualquer luta. Ela só queria aconchegar a alma, aquecer suas mãos, para não acabar resfriando. As revoltas são mais valiosas quando se esbraveja consigo. Aquele que grita para uma multidão é porque ainda não se convenceu de fato.

Mariana sabia das suas horas, sabia o exato momento de partir pra si.

Ela tinha graça, era a graça em pessoa e dançava até quando não sabia o passo, dançava sozinha sem atentar para tropeços comuns, como uma folha que sabe, mas não teme o impacto da queda.

Dançava,
dançava,
dançava até suas mãos ficarem frias.

Até que um dia frio-desses-qualquer resolveu experimentar dançar junto. Dançou com um vendedor de sorvetes que parecia ser seu amigo, dançavam horas e horas sem tropeços, com métrica, agora os passos eram precisos. Pensou em como um vendedor de sorvetes conseguia ter mãos tão aquecidas, mas desistiu de entender. Se apegou àquele par a ponto de nem se lembrar da dança consigo, das quedas, do frio nas mãos.

Um-dia-seguinte Mariana foi ao encontro do seu par que não mais estava. Chegou a se perguntar se algum dia esteve, olhou para o chão e viu um sorvete caído com a casca apontando pro céu, ameaçou pegar, mas desistiu de arriscar o calor que ainda conservava nas mãos. Acontece, que o moço não podia mais ficar ali, teve de habitar lugares mais quentes para vender seus sorvetes frios, fora vender sorvetes em outra freguesia.

Mariana sentiu frio nas mãos, resfriou e foi durmir.

sábado, 9 de junho de 2007

final feliz

- depois de tão pouca coisa, me senti alforriada, livre de você, como alguém que larga um vício. uma mistura insólida de liberdade e perda. um riso querendo chorar. é muito difícil tomar as rédeas do tempo, é mais fácil esperar que ele decida. agora, quando lembro do início, do meio, do fim, me parece que foi sonho, sou-lhe muito grata, me proporcionou o direito de sonhar acordada, sôa cafona, mas é verdade. a vida imita o teatro, a gente têm que saber pontuar pra ficar interessante, se não tudo se perde, e o que um dia foi bonito, termina num desastre.



foi assim, como apagar o último cigarro.

domingo, 6 de maio de 2007

"a poeira é só vontade que o chão têm de voar"

rita apoena

dor mundo

você nunca vai me ter se insistir em ser do mundo. porque o mundo já é meu há tempos, desulpe te dizer só agora. alguém me deu, não lembro quem, acho que foi Deus, ele disse assim:
- Menina, toma conta do mundo.

eu não pude recusar. ele é pai, e pai a gente ouve sem pestanejar.
por isso, ele é meu, e eu dele.

mais inteligente da sua parte seria se aliar aos mais fortes. isso na verdade é só um conselho, porquê eu também sei ser muito, na verdade nunca consegui ser outra coisa, você quase me ensinou que ser de um pode ser bom, mas não chegou a tanto. para que aja aprendizado, é preciso que aja entrega, almas nuas. algumas vezes eu ameacei ver além, via uma sombra, mas ela logo ia embora e a gente ficava ali naquela entrega pouca.

é preciso que se viva sabendo da força do tempo.
é preciso que se entenda que ser o todo é doído. Gandhi era um homem brilhante, mas não era bom pai. na vida é assim, ou você cuida de todos, ou de um só. não existe escolha, existe aptidão. já se nasce pro mundo ou para alguém do mundo.
agora me veio à cabeça: pode ser que o mundo também não seja só de um, logo, é possível que você também seja dele. agora me sinto traída, por você e pelo mundo. nunca me disseram nada! vocês são um do outro e eu sou uma de vocês dois. não sei se me agrada a idéia de ter que dividí-lo contigo. mas a vida é assim cheia de conflitos pequenos quando se nasce para um, e cheia de conflitos menores ainda quando se nasce para o todo. o todo nada mais é do que um vezes o infinito. logo pode-se nascer para cuidar de um ou de uns. quem é levado á segunda opção está condenado a dar mais do que recebe, o muito têm pouco pra dar, um pouco de cada um, o que pode ser um tanto, mas não preenche. quem ocupa a primeira opção vive de troca, a idéia é que os pesos e medidas sejam exatos, mas não são, nunca, ou quase nunca. a vida é cheia de graça e você está para um outro assim como o outro está para você, assim, você nunca está sozinho.

o todo condena e te faz parecer além.
até que você se sente Deus, é morto na cruz pelo cuidado pouco para com um monte e a vida passa a ser um rescussitar diário.

vidarte

só o teatro me permite voar.
a vida não.
preciso aprender a arte da vida pra ter material cênico, como você diz. o problema é que minha imaginação não presta, e diz:

- Não precisa ir tão fundo, dou conta do recado.


eu ouço e fico assim, na superfície, como espectadora da vida, como alguém que vê uma peça já sabendo o final, como alguém que se julga além disso tudo.

domingo, 8 de abril de 2007

a mudança é a felicidade

preciso agora narrar um grande encontro, digno de um roteiro de cinema.
sabe quando as festas são comuns sem que nenhuma das partes tenha se esforçado para tal?
tinham hora marcada, mas o tempo dessa vez colaborou e os colocou juntos antes mesmo do merecido. se encontraram numa festa de amigos em comum, únicos até eu diria. uma dádiva...
"supeitos de um crime perfeito"

os olhares cruzavam por alguns segundos descabidos, era quase um transe, um êxtase comum, vontade de correr dali naquele instante, não podiam, tinham hora marcada, um com o outro, e ai de um se ousasse interromper o combinado do outro. era um compromisso e tanto.
a festa era bonita, as pessoas incomuns, mas tudo tinha música, harmonia, colírio. os
anfitriões eram finlandeses, tornava-se obrigatório a pintura de ovos de galinha mesmo, é tradicional, eles retiram a parte interna e pedem pra que todos os convidados registrem
seus dotes ali mesmo, num ovo. era quase páscoa, eis o motivo, muito bom por sinal, artístico eu diria.
ela pintou seu momento, ele refletiu seu vício por ordem, tão óbvio que ela mesma poderia ter pintado que todos pensariam ter sido ele.
existiam frases soltas:
- A noite vai ser longa...
- Será?

sorte dela se flor.

ele resolveu parar com a bebida, foi até a cozinha pegar um refrigerante.
ela entendeu o recado e foi buscar água. ele voltou á varanda pra buscar copo, ela
bebeu no gargalo mesmo. tão diferente que até parecia vertigem.
no meio da sala, seguindo caminho oposto ela fala no meio de todos, mas era como se ninguém existisse, ninguém ouvia, não tinha fala quase, era um silêncio composto de uma articulação comum a essas duas almas apenas.

- Vamos embora?
- Vamos?
- Haham.

- Vou indo porque vou pegar uma carona com ela.
vale lembrar que existia uma ponte entre os caminhos.

o sentido não importava muito, eu acho.

despedidas seguidas de mensuras para que ficassem mais um pouco. não dava, era cansaço
demais.

ela decide ir no banheiro e o encontra a abrir a porta pra sair.
meio sorriso de um lado.
meio de outro.
sorriso completo.

foi difícil, mas finalmente livres. o barulho da porta sendo fechada, do elevador se
preparando pra subir, um beijo, dois, três com vontade de ser bem mais, vontade de desafiar
o tempo. o elevador chega e nada se modifica, agora de fato eram culpados. o elevador parou no primeiro. ops, lugar errado. a saída era na garagem. ela havia dito, mas ele estava muito ocupado pra ouvir. o elevador volta a subir. um dos dois atenta para o ocorrido, mas ninguém ouve, nem mesmo quem disse. o elevador pára exatamente no andar da festa dos ovinhos, entra um casal estrangeiro, um dos muitos que por lá estavam. nos comunicamos na medida do possível, sorrisos comuns, motivos bem diferentes. e mais uma despedida com perguntas em excesso.
o carro era quase uma carta de alforria, um grito no escuro, um sopro de luz.
o sinal fechado nunca fora tão querido, era como quase tudo gratuito, um instante de desordem.

finalmente chega-se onde deve, por acaso ou não, as mesmíssimas paredes daquela última vez. um dos dois pergunta se não será o fim. acontece que a pergunta era filosófica demais comparada a um momento tão prático.
nunca foram tão um do outro.
uma vontade de eternizar naquele exato.

nenhuma palavra conseguia falar, num primeiro momento tudo era silêncio.

alguns sorrisos tão cabíveis, bonitos. dormiram até, uma prova, seja lá do que for.

as palavras trocadas entre um momento e outro pouco importam. aquele encontro se fez
de silêncios coincidentes, confidentes, surpreendentes.

"não foge de mim. a mudança é a felicidade"

parece tudo mentira. acredito que seja mesmo. instantes como esses deveriam ser pintados em ovinhos.

sexta-feira, 9 de março de 2007

por inteiro

o tempo não esfria, aquece. tanto que quando duas almas que aguardavam por um encontro real não se dão ao luxo da razão, perdem o controle que esbanjavam tempos antes, se vêem sem armas, não podem consigo, se amam como se o mundo fosse acabar instantes depois.

o ser humano é mais bicho que o próprio bicho.
controle

o temos até que a alma grite, peça socorro, se agarre em outra que luta como ela. até que o coração resolva bater, até que o tempo insista em nos lembrar da sua longevidade.
depois de aguardar pelo tempo surge algo inesplicável, que gera culpa, medo de ambos os lados, de ambos os mundos, desses avessos.

a espera não faz nada além de nos preparar para a perda total.
algo como alçar vôo sem abrir as asas.

o seu rosto parecia arder num fogo invisível, suas mãos me puxavam pro desconhecido, pra perto de ti, pra longe de mim, as palavras saiam como sussurros imprecisos, doídas, contrárias.
a boca dizia não, o corpo gritava sim.

um corpo inteiro com vontade de.

o desejo nada mais é do que a vontade de ser o outro por algum sagrado instante.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

quando o carnaval chegar

"quem me vê sempre parado, distante, garante que eu não sei sambar

... tô me guardando pra quando o carnaval chegar

eu to só vendo, sabendo, sentindo, esperando, não posso falar

... tô me guardando pra quando o carnaval chegar

eu vejo as pernas de louça da moça que passa e não posso pegar
há quanto tempo desejo seu beijo molhado de maracujá

... tô me guardando pra quando o carnaval chegar

e quem me ofende humilhando, pisando, pensando que eu vou aturar
e quem me vê panhando da vida, duvida que eu vou revidar

...to me guardando pra quando o carbaval chegar


eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar
eu tenho tanta alegria adiada, abafada quem dera gritar

... to me guardando pra quando o carnaval chegar

...to me guardando pra quando o carnaval chegar"

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

resposta

- Por que você não veio essa noite?
- Disse-lhe que não iria.
- Não, não disse.
- Você ouve o que lhe agrada.
- Você cala o que convém...
- Esse é um caso?
- É?
- O que quer dessa vez?
- Delicadeza.
- Você sempre quer mais.
- Não quero mais.
- O quê?
- Nada.
- Não entendo...
- Nem eu...
- Tudo é tão simples.
- Você não entende nada...
- Faça-me entender? O que quer? O que lhe dou não basta?
- Não.
- O que quer? Diz!
- Quero flores...
- Só isso?
- Não. Quero palavras que me arranquem lágrimas, soluços, sentimento...
- O conflito a atrai tanto...
- Quero encanto, primeiro encontro, que pareças um herói americano cafona, um Vinícius de Moraes amante, um personagem rodrigueano, um cavaleiro do zodíaco, um príncipe das mil e uma noites...
- Pessoas costumam ser mais reais.
- Então não sou.
- O quê?
- Pessoa.
- È, sim.
- Acha mesmo?
- Certamente...
- Então, por que tudo parece tão pouco?
- Só parece.
- Quem disse?
- Eu.
- Você não sabe de nada...
- Será que não se julga muito?
- Faz sentido... Acha que peço absurdos? Sabe, quando abro minha janela, lá pelas 11 da manhã, traço um belo sorriso e penso: “hoje, hoje tudo estará resolvido”. Quando olho pro céu novamente, deparo-me com a hora de fechá-las, e seja lá o que tivesse que ter sido, não foi. Cada abrir e fechar diário leva um pouco de mim. Eu levo um pouco de fumaça. Alguém deve levar a resposta... Já se passaram tantas noites em que fui do fundo do poço à nuvem mais alta. Pena que na volta tudo insista em ser busca...
- Você é um absurdo. Quem é você?
- Sou o alimento dos poetas.
- Não te reconheço...
- Sou pérola. Amarga ou parente.
- Você parece ilusão...
- Sou.
- Como se chama?
- Maya.
- Agora entende por que não fui?

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

.
.
.
.
.
.


"Greta Garbo: Mas por que é que você ia reparar numa mulher como eu? Estou sempre nervosa ou doente... triste... ou alegre demais."

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

vem ver

às vezes sinto uma vontade irremediável de escrever...
é nessas horas que as palavras correm, voam como se me dissessem:
- Aguenta isso tudo sozinha.
- É pesado demais.
- Sabe que não.
- Não, não sei.

minhas costas doem e eu culpo os excessos físicos, só depois vejo que na verdade o que falta é justamente ele, o excesso. tudo tão contido, tão equilibrado que dói, dói na alma.
.
.
.

a escrita acorrenta. e quando ela me pede que vá, eu imploro pra que fique,
como uma amante pede a noite do seu aniversário
implora por

algumas horas que sejam.
só quero durmir essa noite.

sabe quando a noite briga contigo para que não durmas, para que viva cada segundo que ela oferece? dói tanto que parece tortura. a cama pesa sob minhas costas também doídas de tantas cruzes reservadas pro meu bel prazer. não sei quando é cruz, quando é flor. dói sempre tanto. o olho não quer fechar. eu insito, brigo com meu sentido inquieto. eles não se fecham, a cabeça não pára de pensar no que poderia ter acontecido, no que gostaríamos com devoção que fosse menos abstrato. vivo o futuro de anos numa só noite e acordo com a melancolia daqueles que não têm muito mais o que fazer de olhos abertos.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

fragmentos tirados da gaveta.

O seu olho ficou mudo
Foi o tempo
Ele olha e não vê.

Esqueci de
Essa paz
Cadê você?

Eu tenho medo de segurar muito forte na tua mão.

você me fala mais alto que os meus escritos

quero canções pra terminar

Diz pra ele que eu ligo se precisar,
que o escuro é relativo,
que a dor é pra ser dividida.
Não, não diz isso.
Diz assim:
- Ela disse que liga se precisar.

Insensato é aquele que busca o amor na fúria dionisíaca.

Quando tudo são flores, ele me traz espinhos.

Quando digo sim, com a força brusca de cada letra, a vida me joga um balde de água fria, e segue seu caminho, como se surda fosse.

Às vezes sinto uma vontade louca de escrever.

“escrever é fugir da emoção” citação contida no filme Vinícius

Espero para ver o que não vêm.

“Que a noite traga alívio imediato” samia mounzer

“dê um trago na televisão, e veja seu vício”

“Eu também não sei, por isso estou perguntando” Sócrates

“Sócrates tornara-se um perigo, pois fazia a juventude pensar”
Onde andará essa divina alma?

acho que eu não sei amar. preciso aprender antes que o amor desista de mim.

Simples e difícil - relativismo

acontece

Ela vestiu a melhor roupa na tentativa de ressuscitar a poesia.
Percebeu que a temática desse drama seria uma palavra simples, imponente e pouco soletrada: a inocência.
Gostava de ouvir palavras lânguidas da boca daquele que ofertava-as sem nem sonhar no paraíso que vinha como bônus.
Existem momentos que de tão sinceros, chegam a parecer um milagre, um rastro de luz, um abraço bem dado, como a música que ele canta e sem dizer uma palavra que sobre a faz sentir-se uma nuvem branca no céu azul: única, como quando ele ajeita delicadamente o cabelo que acaba de lhe cair sobre o rosto, como aqueles dedos que encontram levemente o seu queixo implorando por olhares mais precisos, menos curtos, mais presentes.
Eles marcaram um encontro num Orto qualquer, sem medo dos possíveis silêncios, nada poderia ser mais puro e legítimo, a natureza têm dessas coisas.
O caminho mudo marcava o encontro de duas almas divinas.
Quando uma alma encontra a outra de fato, se acende uma luz em qualquer lugar escuro, uma delicadeza que escorre pelos olhos.
Esse encontro foi como um sonho bom.
Um milagre real.

domingo, 29 de outubro de 2006

incrível

"a verdade, a mais pura das verdades, é que era a mim que eu buscava quando fui a ti"
samia mounzer

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

em chuva-noite-frio

A poesia me disse
com palavras ausentes
que a felicidade é dos cegos,
raros ouvintes

Me disse:

- Para que as palavras obedeçam
é preciso dor,
é preciso que a dor sangre.

Até que não haja força
Até que o ritmo perca o pulso
Até que não haja alma

Apenas pedaços

frustrados-pedaços-lírico-sentimentalistas
__________________________[lançados]
às almas desertas, às esquinas sem bar

aos bares sem álcool
aos álcools sem cigarro
aos cigarros sem fogo

De presente: a ausência
traduzida em poesia
em dor
em escritos usurpados do escuro.


________________________________________

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

assim

disse-me que queria saber de mim, quem sou.... não preferes saber quem fui? digo-te que sou aquela, somente. mas já fui coisas maiores que isso.
já fui equilibrista, dançarina, insana, alguns até dizem que fui o máximo. passado caríssimo.

tá tudo assim... tão cheio de lacuna.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

grito

ainda falta a carta.
ela já chega.
atrasos são mais comuns do que eu gostaria.
só me responda uma coisa...
você ainda pode me ver?


(grito. grito. grito. grito. grito. grito. grito)

que o futuro seja claro.

segunda-feira, 31 de julho de 2006

por inteiro

agora eu sei a dor de se dar por inteiro.
por enquanto só dói porque a delícia são frutos, e esses exigem tempo para se mostrar.

"Eu te amo
Na profunda imensidade do vazio
Em tudo que ainda estás ausente
Adalgisa Néri
é como se valesse a pena. como a saudade que sucede o abandono. como uma obra estendida na parede. como um lindo retrato seu ou dela. como uma brisa que passa sempre no mesmo horário. como a lua cheia num dia atípico. já nem sei mas o que digo, me perdi nas palavras.
  • sabe existe uma personagem chamada Griet, dês de que a vi quis se-la, e quando a li senti que faltava inocência. parecia que a borboleta já sabia que ia morrer. perdeu a graça.
"Infantil é o teu sorriso
A cabeça, essa é de vento:
Não sabe o que é pensamento
E jamais terá juízo"
Manuel Bandeira
"Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra"
Caio Fernando
there is desert
é tudo tão escuro
cresci
já não tenho medo
me lanço
me atiro
me
até que a lua me diga pretenciosamente: "Foi um prazer"
Não, esse prazer não
esse, esse dolorido prazer é só meu

quinta-feira, 20 de julho de 2006

dar a luz

"a resposta de Capitu foi um riso doce de escárnio, um desses risos que não se descrevem, e apenas se pintarão; depois estirou os braços e atirou-mos sobre os ombros, tão cheios de graça que pareciam um colar de flores. eu fiz o mesmo aos meus, e senti não haver ali um escultor que nos transferisse a atitude a um pedaço de mármore. só brilharia o artista, é certo. quando uma pessoa ou um grupo saem bem, ninguém quer saber de modelo, mas da obra, e a obra é que fica. não importa; nós saberíamos que éramos nós"
machado de assis
dom casmurro


me falta cimento.

.saber que sou eu.

.obra de arte


já te imaginei um artista plástico, não grande, mas pequeno, daqueles que só se conhece quando as línguas são comuns
sem holofote, luz,

um brilho que somente eu via.
te direcionaria luzes quando julgasse nescessário
é branco, como a nuvem que brilha por culpa do fundo.

domingo, 16 de julho de 2006

"Desculpa se te fiz fogo e noite sem pedir autorização por escrito ao sindicato dos Deuses...
mas não fui eu que te escolhi.
Desculpa se te usei como refúgio dos meus sentidos pedaço de silêncios perdidos que voltei a encontrar em ti..."

Toranja
Agradeço àquela que apresentou-me esse mundo fatástico português.

domingo, 2 de julho de 2006

resposta

para aquele anônimo que pergunta, digo que sim. agora, ele, apenas ele, não só basta como excede.

.essa mania de querer excessos ainda me faz sã

encontro delicado

Eles se conheceram em qualquer lugar, num momento nada fantástico. Ela vestia calça jeans velha e uma blusa de malha como a calça, ele mal vestia-se: uma bermuda cansada de tantos assentos desconfortáveis, uma blusa que parecia além dele, sua unha estava por cortar, seu cabelo faço questão de não descrever por aqui. Conheceram-se num dia translúcido, algo como 4 de janeiro, 20 de dezembro, dias que se ocupam com anteceder ou preceder, dias que não são, dias que poderiam deixar de existir sem ouvir nenhum apelo, dias que podem se dar ao luxo do anonimato. Ana e Pedro – assim se chamavam – olharam-se com descompromisso, e ouso dizer que naquele momento não se enxergaram de fato. Não existia conflito, não mesmo, ele chegou como quem pede fogo e ele se limitou a emprestar, nem uma cruzada de pernas, nem um ajeitar de madeixas, nada. Começaram a falar e ouvir com um desinteresse confortável. Discutiram política, teorias sociais, econômicas, citaram Marx, Weber, não mais que isso, seria profundo demais, um para cada visão cabia perfeitamente. Concordavam em muitas opiniões, assim o conflito passava cada vez mais longe. Suas grandes causas, fantásticos planos foram aos poucos se apresentando. Viram-se comuns. Existia uma inocência e um quê de banalidade nesse encontro, - não, um encontro não, nesse “acaso”, “encontro” parece tão sonhador. Após horas de conversa Pedro convidou Ana suntuosamente para conhecer seus aposentos. Ana sequer pensou e foi, é importante lembrar que Ana era dotada de uma graça e curiosidade própria de menina, para ela obstáculos eram escadas. Essa menina não conhecia os porquês, tudo era tão simples, fácil e vivo, que chego a acreditar que ela dividia casa com a solução. Lá se foram eles cultuando brisas de outono. Chegaram. Pedro educadamente abriu-lhe a porta, contou-lhe piadas graciosas ou não, deu-lhe uma toalha, mostrou-lhe os cômodos, fez um breve histórico sobre os outros residentes, colocou uma música agradável.
Ana resolvera tomar um banho, enquanto Pedro pôs-se a preparar alguma coisa mastigável. Este era um perfeito e genuíno cavalheiro, sabia como ninguém agradar à moça e rapazes, não distinguia sua atenção por sexo, era cortês por natureza.
Ana ao sair do banho pouco demorado, foi imediatamente ao encontro de Pedro que estava de costas lavando as mãos. Ela não pôde acreditar no que via, sentiu o tempo correr desesperado, só teve tempo de abrir um sorriso desconcertado, seus olhos brilhavam e suas pernas mal podiam embasar seu corpo. À mesa estavam: vinho, taças e um prato, apenas um prato de macarronada.
Se olharam de relance e naquele momento qualquer descrição pessoal ou conhecimento teórico falaria pouco.

sábado, 17 de junho de 2006

saudade

saudade do tempo em que não me bastavas

.

Sabe quando ela veste a melhor roupa e pensa nos olhos que surgirão pela rua. algo como tomar um sorvete e olhar em volta. como cruzar as pernas numa grande festa. afagar-se num lugar aconchegante. como durmir esperando pelo sonho. é assim

Par-aquele

Que seja por despeito, falso-amor ou qualquer coisa, digo-te que essa menina, que antes vibrava a cada novidade, lamenta o novo de agora. Dói lembrar o quanto me perdi. Lembro-me te vendo como um desconhecido, atentando para uma semelhança que sequer via. Lamento que tenha te estranhado tanto, e digo que não foi sempre assim. Eu fui, sempre. Não você sob meus olhos, entende? Agora já é tarde, cheguei atrasada, não sabe como isso me desconforta. Foi bom me sentir mulher por algum tempo, me sentir sua mesmo que parcial. Desculpe a oferta limitada, é que a vida me fez assim. Parece que a solidão não cansa de mim. As coisas mudaram, e não te quero disponível, te quero sabendo da minha disponibilidade. Não te quero traidor, nem apaixonado, te quero apenas, de qualquer jeito, do jeito que vieres ou que não vieres. Que venha o que restou de melhor, de pior, de você. Lamento não ser a mulher que sonha, ser mais real que isso. E é assim imperfeita, incompleta que te gostei. E te gosto, desculpe, agora mais. É uma pena que sua perda tenha me encontrado. Te quero falando das minhas raras chegadas, cantando Canto de Ossanha, fazendo planos como quem nunca caiu. Que seja assim ou de qualquer outro jeito, mas que seja, porque se o que faltava era eu, agora, só agora sou.

domingo, 4 de junho de 2006

Desilusão

As borboletas amarelas morrem

quarta-feira, 24 de maio de 2006

Se ela falasse diria: "a maçã madura caiu"
Pérola Simões
"Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente"
Adalgisa Néri

sexta-feira, 12 de maio de 2006

"Que o desejo não me guarde na vontade de ser tua"

Cristina Branco

sábado, 6 de maio de 2006

Do me your litle

It's confortable for you my dull life.
I want to know abaut your world.
Put on wings and teach me to fly.
Turn off this dark person.
How many happy days are you to write far from me?
What are you going to do tonight?
I'm going to speak abaut more than you alone.
I'm going to listen our musics.
I'm going to do all for you.
And you?
Call me not.
I don´t want to know.
I'm going to close my eyes.

terça-feira, 2 de maio de 2006

Solidão com vista pro mar

"Eu não sei dançar tão devagar pra te acompanhar"
Marina Lima

segunda-feira, 1 de maio de 2006

Ilusão de um leviano

O olhar disperso da criança que acostuma-se com o fechar de vidros cegos
O circo dos artistas que fazem do sinal seu horário mais fiel
O andar apressado do empresário que planeja o sucesso
O sorriso delineado da mulher que é sócia da esquina
Os braços fartos do escultor de grandes paisagens
O cheiro suave do perfume da mulher
O badalar do sino que simula alguns segundos de ordem
O incansável cantar dissimulado dos monumentos históricos
O eterno peso leve do barroco
A mulher que mantém os braços erguidos à porta da igreja
Difícil dizer se é louvor ou prece
O abrigar insatisfeito daquele que não sonha
A luz do dia que movimenta
A luz da noite que machuca
A solidão clama por um pouso não forçado
O sereno pede que as esquinas sejam acalento
A lua sabe que o abrigar de muitos é o desabrigo
O dia esconde a solidão nos becos
A noite acama a euforia
Empresta lentes para que ele veja o quanto é caudaloso
Enxergar seria bom se não fosse tão doloroso
Antes ser esporádico a não ser
E amanhã assim como ontem os olhos adoram o que não vêem
O que não se pode tocar de tão escorregadio
Ele gosta do inalcançável
Se sente um eterno aniversariante
Esqueceu de abrir os olhos

sábado, 22 de abril de 2006

Eles

Como ele poderia dizer pra ela que ela não era bem assim como ele sonhava?
Como ela poderia dizer que essa coisa de corpo ainda a assusta um pouco?
Como ele diria que a vida passa rápido e que ela tem medo de viver?
Como ela diria que o medo do desconhecido só precisa de um lirismo maior pra ser quebrado?
Como ele poderia dizer que seu balançar de perna e seu olhar perdido o faz seguro?
Como ela poderia dizer que sua vida é tão aflita quanto seus sentidos?
Como ele diria que ainda é novo para entender a sua profundidade?
Como ela diria que o sente tão passageiro quanto uma viagem?
Como ele gostaria que ela não se fizesse tão culta aos seus olhos
Como ela gostaria que suas prioridades fossem diferentes das de um menino
Ela só queria que essa euforia viesse acompanhada de um abraço
Ele só queria desrrespeitar o tempo
Ela só queria se filiar ao tempo para que um dia ele atenda seus pedidos
Ele só queria saber quem é o autor de determinada frase
Ela só queria lhe mostrar o quanto é sábia
Ele a faz perguntas frágeis
Ela responde com a humildade de quem muito sabe
Ele é tão obscuro quanto um dia de chuva
Ela irradia como um dia de sol
Ele é uma pena
Ela é a pena.

sexta-feira, 21 de abril de 2006

Magia

Hoje ouso escrever algumas linhas, pois acho que basta de jejum, basta de esconderijos, basta de me esconder de mim. Tenho andado numa espécie de transe paradoxal, que me faz encontrar o lírico que fica no inconsciente, o paradoxo é que eu sei da sua existência. Descobri a pouco o quanto a flauta é um instrumento fantástico. Sendo mais específica achei assim por acaso numa viagem que fiz a pouco o instrumento que me faz levitar. Mesmo sendo um estranho, já sei o quanto sua companhia me fará bem, digo me fará porque sei que temos muito a viver pela frente. Acredito em poucas coisas, uma delas é o poder da música. Ela cura, encanta, e purifica, nos faz entrar num mundo inquestionavelmente mágico. Ah, como amo a magia!
Por hoje chega.
"Madalena tem um riso que significa uma possibilidade de gandaia-esperançosa"

Oswaldo Montenegro

segunda-feira, 10 de abril de 2006

Desabafo

Arre, estou farto de semideuses!
Fernando Pessoa

O nascer

"Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso."
Fernando Pessoa

Ando tão dependente que sequer consigo juntar algumas palavras, sílabas ou letras.

quinta-feira, 30 de março de 2006

Homenagem à Cigana


"Eu me vesti de cigana
Pra cantar o sol
Fiz comício e deu cana
Pra cantar o sol
Ah, que riso bacana
Pra cantar o sol
Virtuosa e profana
Pra cantar o sol
Dança, dança, dança pra cantar o sol
Todo ao amor que emanar, pra cantar o sol
Fui quem se dava e se dana
Pra cantar o sol
Quem se empolga e cigana
Pra cantar o sol
Quem teu hálito abana
Pra cantar o sol
Quem não mente, te engana
Pra cantar o sol
Dança, dança, dança pra cantar o sol
Todo ao amor que emanar, pra cantar o sol
Fiz do meu corpo cabana
Pra cantar o sol
Fiz de um ano semana
Pra cantar o sol
Fiz do amor porcelana
Pra cantar o sol
Fui cigarra e cigana
Pra cantar o sol
Dança, dança, dança pra cantar o sol
Todo ao amor que emanar, pra cantar o sol
Fui tua mão que me esgana
Pra cantar o sol
O que o brilho não empana
Pra cantar o sol
Meu amor tinha gana
De cantar o sol
Virgem santa e sacana
Pra cantar o sol
Dança, dança, dança pra cantar o sol
Todo ao amor que emanar, pra cantar o sol"

Cigana_Oswaldo Montenegro

terça-feira, 21 de março de 2006

"E sem muita demora ou explicação soltaram-se asas enormes de suas costas, arrancando a capa envelhecida em que a vida se tornara. Libertou-se e como uma estranha fênix renascida das cinzas subiu ao céu, num vôo que mais parecia um mergulho na tarde dourada. E quando a noite chegou, trouxe consigo uma saborosa felicidade e cheiro de amoras"
Renata Soares
"Parece que quando se vive nada sucede. As pessoas entram e saem de um momento vivido como se de um autocarro se tratasse — depressa, sisudas e aos solavancos.
Como se fossem eternas."

Sónia Bettencourt

domingo, 5 de março de 2006

O reacender do vazio

É tempo de rever o que foi escrito e inscrito, de recusar as linhas frágeis, de sublinhar os grandes versos, de carregar o peso leve e de crescer o que decresce. Nesse espaço que de tão vazio se tornou escuro deixo esse leve parecer que não se faz sublime, nem digno, apenas parece, se parece, aparece.

"A esperança é a coisa com plumas..."

Emily Dickinson

terça-feira, 31 de janeiro de 2006

De sua autoria descorada

Chove lá fora
Aqui dentro nem a natureza encontra espaço
Nada mais
Não procure a audácia do sol
Nem o desbravar da chuva
Querendo uma folha em branco, entre
Sinta-se à vontade
Até sente-se caso deseje
Há, não quer sentar?
Pois então... Vejamos
Assim como quem não quer nada escreva a primeira linha
Quem sabe não sai um poema?
Desenhe também se preferir
Quer pincel?
Não tenho muitos
Mas te ofereço esses dois
As cores, bem
Tenho azul e vermelho
Gosta?
Não?
Pois então rabisque
Aja como criança
Não me importo
Quer ajuda?
Bem,
pegue o lápis,
segure na minha mão...

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Angústia

"Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar rir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar quando eu me encontar

Quero assistir o sol nascer
ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver"

Momento ausente
Canções contorcidas
Sensações turbulentas
Vontades ocultas
Desejos avassaladores
Saltos que viram
Solidão que acumula

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Vou na valsa

Como poderia te dizer agora que te pensar me faz bem?
O tempo anda fechado, acredito que abrirá em breve. É uma pena que tantos tempos precisem ser fechados para que um apenas se abra.

Palavras soltas, idéias confusas, as palavras não me servem agora.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

"So much to tell with you"

domingo, 1 de janeiro de 2006

Simplismente uma carta

De repente me peguei pensando em como você estaria agora, fazendo o quê e com quem. Senti vontade de te falar coisas que sempre pensei em dizer. Mais do que nunca aguardei por um telefonema seu, mesmo sabendo que no caso dele acontecer seria secundário, sei que não teria eu te levado até o telefone. Mas não me importei. Só queria ouvir sua voz e até agora quero entender por que. Cheguei a conclusão minutos depois que existem coisas que fogem do meu crítico intelecto. Me senti normal, comum. Senti que caso te encontrasse agora não estaria altiva, te olharia "por baixo", como nunca tinha olhado antes. Gostei de me sentir assim e lamento que não esteja por perto. Espero que esteja bem e que um dia eu possa te fazer entender tudo e qualquer comportamento que ainda não entendo em mim. Gostaria de entender o seu também, mas esse se faz um pouco claro. Não todos. O fato de você não ter me ligado antes de viajar por exemplo, me fez sentir desimportante, diante disso parei de me sentir tão especial aos seus olhos. O que é bom, porque na verdade nunca fui, te induzo sem perceber a dizer as coisas que quero ouvir por pura vaidade, e o mais incrível é que quando você fala me sôa tão natural que eu acredito no que ouço. Pura dissimulação. Não creio que minta, apenas acho que te inventei na minha mente infantil. Você também me enxerga da sua maneira. As vezes olho em volta e tenho a sensação de te conhecer melhor que todos, mas logo vejo que te conheço da minha forma, só. Sei que deve estar achando tudo muito complexo, e como não tem saco pra meias palavras prefere que eu seja mais direta, mas não sei ser assim. Prefiro que entenda tudo da sua forma.
Sinto vontade de te contar coisas que de tão íntimas me parecem insignificantes perto dessa distância que existe entre nós dois. Existe um vácuo, um vazio, que ao passo que trasparece verdade nos distancia. Me sinto meio infantil te escrevendo agora, me sinto menos racional, menos pragmática.
Gostaria te ter coragem de te entregar essa carta. Caso não tenha ela será mais um momento guardado, um momento antes meu e agora seu. Dois momentos guardados numa gaveta.
Desculpa se sempre me fiz parecer inatingível, é que sou mesmo assim. Pode ser que eu tenha medo de te aceitar e você relaxar, existem mil possibilidades, mas prefiro me declarar dessa forma. Confesso também que essa relação não é no todo ruim. É bom te ter pela metade, e acredito que você também prefira assim. Acho que não sabemos ter mais. É bom sentir que sei mais sobre você só pelo fato de você me ligar sempre que precisa de alguém pra te ouvir, mesmo que você não diga exatamente o que gostaria, fala coisas assim perdidas pra não dizer o que na verdade te fez me ligar, me deixa durmir, mesmo que eu não precise ser deixada, me diz que tem fome e normalmente eu tenho também, falamos tudo menos o que pensamos. Eu sei, e não me importo por achar que sei o que você pensa, e você não fala por pensar já saber o que eu penso. Ninguém sabe nada.
No primeiro dia do ano estou aqui no meu quarto lembrando do seu sorriso que a essa hora deve estar servindo de oferta pra muitas outras pessoas, algumas até me incomoda pensar que podem também desfrutá-lo, mas estou aqui chorando. Não sei o que isso quer dizer, queria que dissesse algo de sólido, já que te sinto sempre tão líquido, você escorre entre meus dedos e eu finjo que te deixei cair.
Quero te dizer por fim que o que sinto por você é inexplicável. Me sinto sua, e ajo tal como, sem nunca ter sido. Nem sei se devia dizer isso, mas as vezes me vejo em situações em que seria bom te ter comigo. E o que é confuso é não saber porque não dá certo, nem errado.
Sei que não te esclareci nada, mas enfim quem sou eu pra entender. Não entendo como teus olhos conseguem me falar tantas palavras sem auxílio de outro sentido. Não entendo nada, só entendo que te queria aqui e gostaria muito que esses mesmos olhos não estivessem sempre tão distantes quanto estão agora.
"Nunca disse, te estranho"