terça-feira, 18 de julho de 2017

Sobre buracos, bolinhas e jabuticabas.



Ela estava cansada disso tudo e decidiu, não ela não estava, ela cansou tem pouco tempo, cansou de ver essas caixas todas abertas querendo dizer alguma coisa, cansou de todas essas dores que passeiam pelos seus músculos, e ossos, e vísceras, e tudo isso que ninguém vê, pensou que seria legal abrir um pouco do vestido pra deixar ver, pensou que tinha aquele buraco logo acima e que se tivesse logo abaixo as pessoas poderiam fazer uma associação. Livre. A gente se pergunta o tempo todo o que fazer com esses vazios que ainda insistem em permanecer dentro dessas caixas sem fundo, a gente, no caso seria ela e a outra pessoa dona daquele buraco lá de cima, ele não me assusta, me sôa familiar, ele é um lugar conhecido do qual estou sempre partindo pra depois voltar. sabe o que acontece? eu me visto com esse vestido de bolinha, me abaixo logo abaixo desse buraco, abro um pedaço do vestido percebendo a semelhança entre nós e não sei que fazer com isso, eu percebo que cada bolinha dessa no fundo é um buraco que fizeram em mim, são várias cicatrizes redondas que eu fui colecionando de um jeito bonito e simétrico por não saber fazer diferente. A verdade é que eu nunca soube como dar conta de todo esse espaço pra dentro. Tudo passando muito rápido pela cabeça, movimentar, arrumar as caixas, as caixas eram o foco, o tempo dentro daquelas caixas, mas o que fazer com o tempo dentro da minha cabeça? Oco. Me senti derretendo, mole, tudo mole. Sim, eu sentia vergonha, vergonha daquele vazio todo, de todo aquele espaço a ser preenchido, eu era tudo aquilo que faltava naquelas caixas, naquele buraco, era tudo eu, tudo meu, memórias. Ela precisou ficar abaixada, porque de muitas formas tudo parecia desabar, e junto com isso a casa flutuava, hora se firmava de um lado, hora do outro, e eu ali no canto direito sem saber o que fazer com as mãos. O chão irregular, as paredes tentavam se firmar no prumo, prumo de que mesmo? A jabuticabeira, ainda tinha a jabuticabeira, ela morria a cada dia, assim como a gente morre também, mas esquece de ver, cada jabuticaba que caía vinha direto virar buraco em mim, e esse vestido, quanto mais o tempo passava mais ela era seca e oca, ela quem? securas sem cura. Jabuticaba, buracos, bolinhas, falar com Deus. Não quero mais a certeza das laranjas sempre no mesmo lugar.

domingo, 4 de dezembro de 2016

borbo



Ela decidiu voltar pra dentro de. ela percebeu que essa coisa de ser borboleta, de ver borboleta e de dar borboletas pode não dar certo em alguns casos. melhor ficar, parar, se concentrar pra não perder as suas. tudo acaba acabando mesmo. e se, por acaso o seu estoque secar, ela seca também. 

"só se pode encher  um vaso até a borda, nem uma gota a mais". caio

nada a mais. nada mesmo.  fique com os seus rumores de dentro de si, não vá muito pro lado de lá, não precisa ser tão insuportável, senão sangra. senão a vida fica cinza e dentro também. cuida pra que dentro as cores estejam equilibradas. não oferta demais. agora trata de receber. já foi o tempo do que não pode, já foi o tempo de aparar as coisas que voam. se cortar mais, morre.  nem uma gota a mais. é secando que se renova de qualquer forma. agora trata de fazer assim, olha ao redor, procura caçar as borboletas que estiverem precisando de casa, coloca dentro da cabeça, conserva a vida, conserva o vôo, conserva o que sempre foi teu, depois você solta, recicla sua cabeça pra voltar pra'quilo que sempre te ajudou a fazer parecer possível, reencontra essa coisa de magia que alguém disse que não tinha mais. não desperdiça as cores que te ficam, o tempo trata de cuidar disso, não deixa que esses outros tratem de acelerar essa falta, não deixa que peguem nada sem devolver, se pega azul, devolve rosa, mas devolve. se não devolve, não dá mais. senão acaba. pode acabar, mas quando acaba, a dor volta ainda mais forte. cuida da vida sem dor. 
não, não pode acabar não. cuida do teu estoque pra não colar no chão.

os passarinhos aqui de fora não param de cantar mesmo nesse dia cinza.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

ansiedade de amor

Poderia dizer que ao se ansiar no amor um roteiro pronto e mal feito  - , desses cafonas que no final  as coisas se ajeitam, que as pessoas dizem mesmo o que é importante dizer, não guardam a sete chaves e só revelam minutos antes da sua morte, era um tipo de roteiro clichê, mas criativo, o desafio era encontrar os furos interessantes nessas histórias que a gente só sabe que existe quando assiste comédia romântica,  é isso, era uma comédia romantica cool, com personagens descolados que dariam certo, não seriam escravos do tempo, nem do sistema, eles seriam felizes para sempre porque estariam satisfeitos com suas escolhas, com esse roteiro a gente quer encorajar as pessoas do mundo a revelarem seus segredos bem antes da hora do fim, esse é um filme que não acúmulo de nada, ninguém super valoriza sua revelação, as pessoas vão lá e falam, lá aonde? perda de tempo acumular dizer e afeto, duas coisas que só cumprem sua função quando divididas, com esse roteiro,

Se fortaleceria em esperança de mãos dadas - , toda essa gente que finge não querer dar a mão pra ninguém, a gente precisa dizer assim ó: eu também preciso dar as mãos, aí o outro se convence que talvez ele precise também, ele vai parar de querer briga porque alguém disse pra ele que isso pode também, que a gente não precisa sair por aí se fingindo de forte, dá um trabalho danado parecer o que não é, você primeiro começa a parecer sem nem saber porque, depois o outro começa a ver essa pessoa que você se parece, depois você precisa cuidar de ser o que pareceu porque senão perde o seu lugar no mundo, ficará inclassificável, se tornará um ser temido,  tudo isso aconteceria em poucos segundos, ou minutos? essa coisa do tempo não tem medida, a gente precisa parar de fazer isso, porque é mentira, só por isso mesmo, cada um é dono do seu tempo, a gente sai por aí fingindo tempos comuns pra não se perder, pra sentir que não somos só, pra esquecer que no final das contas acabaremos sentados numa mesa de bar resistindo a doses de álcool de qualquer espécie


E pedidos antecipados de uma soda com uma fatia de laranja? Não limão, laranja mesmo. -laranja porque coisa muito ácida quase sempre provoca um tipo de comportamento ríspido, um tipo de indisposição social, uma coisa meio azeda. e só.

Em negrito provocação da maravilhosa Thais Menezes que sempre me inspira e me faz mais eu.

domingo, 8 de maio de 2016

joga fora

joga fora.
joga tudo fora.
apaga conversa.
apaga foto.
salva tudo num pendrive e manda embora.
manda embora.
tem coisa que não sai de dentro.
puxa que sai.
é sal.
uma coisa sempre gera outra coisa.
isso não muda.
tem opção.
sempre tem.
o que?


dores

eu queria falar sobre essas dores que eu tenho sentido, dores musculares, os músculos estão berrando, saltando e eu já não sei mais como caber nesse excesso. dores. dores como eu não me lembro de ter sentido. começou no ombro quase como um pretexto de cuidado do outro. depois o joelho não me deixou mover por uma noite. depois a posterior da perna esquerda. e agora as costas, num lugar preciso, um lugar que eu nem sabia que existia, mais pra esquerda. dói muito. eu to escrevendo pra ver se passa a doer menos. não tem nada de altruísta nisso,  essa é uma escrita que pretende curar. eu vou contar. vou dizer que você não pode dar a entender tanta coisa que não pode sustentar. eu fico aqui com esse aparador do out back que ganhei de presente mais ou menos, um presente seguido de não, não faz isso, será? medo. medo demais. te falta capacidade de sentar e deixar o tempo passar, sentar em qualquer lugar sem escolher muita coisa. o pior é que eu to numa fase da vida que não cabe lamento, não cabe sofrer, só cabe essas dores que estão me paralizando. tudo começou com muita coisa sentida, a gente observava em si, a gente entendia um pouco do mundo a partir do que a gente era junto. tem um cara auto centrado que é viciado em falta, que nunca está satisfeito, que não dá conta de ser menos em nenhuma área da vida. ele vem com muita força, fala alguma coisa sobre esperar o tempo necessário, sobre um coração que fica em paz com boas escolhas, fala sobre futuro abessa, sobre muitas coisas que ele nunca, algumas coisas sempre, ele sempre quis conversar com alguém de verdade, sempre quis ter seu espaço apesar de estar a dois, sempre quis morar no alto paraíso, sempre quis uma mulher inteligente, ele nunca tinha planejado uma viagem antes, ele nunca tinha se sentido tão bem, ele queria fazer isso por ela, ele dizia que queria. ele despertou uma coisa quase que insuportável pro mundo, pro mundo dela. tem um tipo de gente que quer demais, que anda por aí se decepcionando com o que as pessoas poderiam ser e não são, é um tipo de gente que quando encontra alguma coisa que parece fazer sentido entra na coisa de um jeito bruto, faz o que pode, diz quase tudo por si, pra si, o o outro pode achar que ele faz parte disso tudo, mas ele não faz, por acaso é ele, esse tipo de gente fala pra se convencer, o outro entra na dança também convencido achando que é isso mesmo que tem alguma coisa ali muito forte. forte. forte por fora, mas por dentro é uma coisa arisca que foge do que deseja.
aí, aconteceu muita coisa, teve até intervenção espiritual, de outro plano, teve gente abençoando, mas não adianta, ás vezes a gente não esta preparado pra ter o que pensa querer. as vezes a gente deixa passar. muita gente deixa passar. desde o início já era sabido que tinha uma força estranha ali, eu disse que não seria fácil, mas eu aguentei, eu não teria desistido. desperdício. eu só queria que essa dor nas costas fosse embora assim como você foi. não aguento mais essas dores. existem muitos mistérios entre as pessoas, existe um abismo enorme, pode ser insuportável essa capacidade de ver no outro espelho. se eu fosse tua amiga eu te diria: cara, cuida de não se desalinhar com o que a vida te oferta.  ela não costuma ser tão generosa, ás vezes as coisas se definem e não tem mais volta. cuida de ter coragem pra escolher e ficar na coisa, mesmo que doa. porque vai doer de qualquer jeito.



Alexandra Levasse

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

aspire-se

- por que é que você me pede tanta aspirina?
- é pra eu não me doer.
- como é que é? hein? você se dói?
- eu me doo o tempo todo.
- aonde?
- dentro, não sei explicar.

aliás, cada vez mais ela não se sabia explicar (...)

............................................................................Clarice Lispector

Macabéa o nome dela.
Depois há quem diga que ela era um ninguém perdido no mundo.

terça-feira, 21 de julho de 2015

entre 28 e 30

é como se minha alma não tivesse nada a declarar. ela ta solta. ta perdida entre 28 e 30. nem uma coisa nem outra. tem alguém parado no meio. tem uma pessoa que diz que até os 28 sua vida vira do avesso e você se pergunta, que avesso? que mais? quantos avessos mais? falta pouco tempo pra virar, se não virou, não vira mais? dá um certo pavor essas frases de efeito. na realidade a gente nunca sabe quando é que esta dentro de alguma coisa ou fora, a gente acha que, a gente decide que, a gente cria tudo, sentido. você chega aos 28 ainda falando sem querer que tem 26, você não chega nunca, você ta prestes a se tornar alguma coisa que você não se reconhece, você não pára no espelho por mais de 1 minuto, você passa muito tempo esperando alguma coisa. a coisa chegou. e você ainda não. difícil se admitir no seu lugar, com suas escolhas, na sua idade, com seu corpo, com seu cabelo, sua pele, sua voz, seu tamanho, sem mudar nada, uma mar parado. ela me disse que isso era felicidade. Sempre penso nisso, ela nem faz ideia, as pessoas estão tão de passagem que não fazer idéia do quanto estão na gente. cada vez mais televisão, anestesia, uma coisa meio andy warhol misturada com não sei mais quem, não tem mais referencia, não tem muita surpresa, uma fase em que as coisas estão quase organizadas, como se fossem agora durar, e eu me vejo vagando como zumbi nesse lugar cheio de ordem como se eu fosse um tipo desses que se droga, cria coisas geniais e morre aos 27. hoje eu entendo. mas eu não, eu não nada disso.
socorro.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Vai pedir o que?



 

Existe um cardápio de gente, existe gente olhando esse cardápio, existe um monte de coisa que a gente sente, mas existe a cabeça, existe a cabeça, existe o pé também, o pé ás vezes abre, abre caminho, abre ferida, o pé faz andar, faz parar, porque ás vezes não tem metáfora, tem só o que é, tem a vida real, tem a fantasia que vai pro ralo, tem esse cara que olha e não vê nada, um olho que quer muito, que quer tudo, um olho de quem nunca teve nada escolhido, um olho que não se reconhece no que tem, um olho que não se sabe, ele está? está fazendo a dieta da proteína, ele não come massa, não come farinha branca, não tem energia pra quebrar, um corpo viciado em apontar, um corpo que não espera pelo o outro, um corpo que não troca, só recebe, um olho que olha e não vê, um excesso de verbo, uma gente que fala até perder a razão, uma gente que gosta de criar castelo, uma gente viciada em destruir castelo, os seus, o dos outros, tudo junto, muita gente sobrando pra muita gente faltando, e tem esse olho, esse é o olho de um homem que quer uma mulher, é o olho de um homem que foi avassalado por um vaga-lume, ele ficou, parou um pouco, perdeu a hora, perdeu os sentidos, perdeu o calor do corpo, perdeu certezas, perdeu o que já não tinha, perdeu o que tinha sem querer mais ter, perdeu, ele perdeu muita coisa pra se ganhar, ele se ganhou e foi embora, ele falou até não poder mais, até que calou, caçador de vaga-lume, olho de quem não sabe o que fazer com tanto mundo, olho de quem não dá conta do que vem depois do grito, olho de quem precisa ser capturado por qualquer coisa sem sentido pra não se perder, olho de gente que jogou o relógio no mar, olho dessa gente toda cinza que anda por aí escolhendo o que comer no sábado à noite.




(Olho comedor de vagalume)
- Viu?
- A mim, me interessa quem come pizza.

 



Antes o banal, fome mesmo, antes a fome real, fome de pizza, 
bem antes
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