da alma
com os anos se trava,
e dizem:
- Ao arquivo!
Acabou-se.
Um de menos!
Ontem eu comprei material escolar. Tinha esquecido o quanto isso me dá prazer, essa coisa de início, caderno em branco, caneta cheia, lápis grande, borracha intacta, apontador virgem, tudo isso. Tudo isso é vida, é verdade e não é feio, ou pouco. Estive pensando, e acho que essa coisa de crescer não é de todo ruim. Não, mentira, não é isso. Pensei algo como "crescer e aparecer" e anotei á noite, ontem também quando estava com um sono que há muito tempo não sinto, acho que por causa daquela taça de vinho que tomei com uns amigos, uma amiga inclusive disse que estava tudo combinando: a taça, meu sobretudo, a cadeira, a mesa redonda e pequena, o bar mexicano, a musica do U2, as fotos na parede de carros, o barulho das pessoas falando cada vez mais alto, o garçom estava sofrendo algum problema afetivo, o outro que sofria algum outro problema que já não sei qual era, percebi que sua voz era baixa e a articulação péssima, sei que ali havia problema de alguma espécie, algo que saiu, virou fala mal dita, sorte dele. Mas ela, a minha amiga, não achava que tudo combinava, não, pelo menos não disse, só falou do vinho, do meu figurino, da meia, do sobretudo e tal, o resto eu que achei agora, aquilo tudo era uma coisa só bem lá no fundo. Mas o assunto não é esse, é outra coisa, essa coisa de crescer. Então, pensei que crescer é ficar abarrotado de certezas e gostos já sacramentados, e essa coisa de sacramento me incomoda, é isso que me incomoda. A gente precisa de muita segurança pra virar alguma coisa de fato, por isso o ensaio constante, ensaiar pra vir a ser um dia, quem sabe. Se bem que pensando agora a gente é como qualquer outra coisa que a gente decide e muda de idéia, não precisa ser pra sempre, deve poder mudar e se não puder também eu invento. Que saco isso também, as coisas todas já prontas, parece que alguém manda e a gente sempre obedecendo, um alguém comum mandando e desmandando sem sequer dar a cara á tapa. Eu só preciso acatar e mudar um pouquinho alguma coisa qualquer pra parecer que a regra é invenção minha. Mas eu sei, agora eu sei, que eu preciso obedecer, porque eu não sei bem, não mesmo, até sei, acho que é pra me enquadrar nisso que chamam de vida, pra viver mesmo, nunca pensei, não mesmo que eu fosse tão amadora nessa coisa de vida, a gente, a gente não, eu preciso aceitar isso, isso e muitas outras coisas, aceitar só, só e só. Eu prometo, prometo não, mas vou tentar. Esse período eu me comprometo a fazer as pazes com a vida, se é que um dia a gente esteve numa boa, mas a culpa não é, nem nunca foi minha, pode ver quanta gente aí também não se dá com ela, acontece que ela é muito difícil, autoritária, não sei, mas fazer o que, eu dependo dela e acho que isso não deve mudar, há que se ter paciência e entender que tem gente que é difícil mesmo.
Ser de uma forma qualquer. O que é isso? Giramos e giramos, todos nós, e sempre voltamos ao mesmo ponto. É tudo tão incerto... Se nada houvesse de mais evoluído, a ostra em sua concha deveria bastar. Não tenho a concha, mas eu não sou solitária não, eu tenho muitos amigos. Tenho condutores por mim, parada ou em movimento, eles apreendem todas as coisas e as conduzem através de mim. Eu me animo e escrevo, sinto com os dedos e fico feliz, eu só estou triste hoje porque eu estou cansada, de modo geral eu sou alegre. Tocar com a minha uma outra pessoa é quase o máximo que eu posso resistir. Bom, agora eu morri, por enquanto estou morta. Eu acho que quando eu não escrevo, eu estou morta. Vamos ver se eu renasço de novo.
Trecho de uma entrevista exibida na exposição "Clarisse Lispector – A hora da estrela"
É como se eu tivesse parado, não no tempo, durante não sei quantos anos, em mim. Agora me empurram pra fora. Tem presente mais caro que esse? Não tem. Paguei um preço mais que justo. E é só. Obrigado.
Detesto dar nome aos bois.
Percebi que nas relações eu agia como nos acontecimentos.
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- Sal.
- Á propósito, Graça fez uma sopa ontem muito apimentada...
Isso não te interessa.
Meus casos que permeiam, mas nunca assumem a causa real numa conversa casual é apenas um canal que anuncia novas temáticas:
- Ah, essa coisa de pimenta é difícil de dosar mesmo. Uma vez (...)
Ninguém nunca tinha reclamado. Todo mundo adora novidade, eu espertamente decidi sê-la. Entendo que existem idéias que não admitem desvios e não as condeno por isso, é só uma questão de ser mais amarrado que. Característica genial? Pessoas que amarram tão bem suas idéias que ninguém é capaz de desatar ou somar? Decidi que quero ser gente, definitivamente, essa coisa de "gênio" não é pra mim. Descobri que desenvolvi um olhar pessoal sobre tudo e qualquer coisa. Uma frase já é coisa demais pra codificar. Não sei ouvir, acho, melhor: não sei ouvir muito, por incapacidade mesmo, longe de culpas ou arrogância, sofro de excesso, e é só isso. Faz tempo eu deixei de entender o que se quer dizer pra entender o que eu acho que é dito, de um jeito bem claro pra mim, só pra mim, e eu sei disso e me orgulho também. Essa mania de ser em excesso ainda me leva longe, mais longe.
E é só isso.
Até!
Sinto que preciso escrever alguma coisa que ainda não maturou - processo é insano e corrosivo.
Estava lendo um livro que ninguém conhece, nem eu, não sei quem é o autor, nunca ouvi falar do título e sequer sei a nacionalidade, mas ele me escolheu. Ando carente de atitude desse porte, os livros, sempre eles me salvam dessa insanidade da escolha. Eis que no meio dessa viagem fui apresentada por uma amiga numa conversa, que deveria ser uma corrida e acabou com sorvete Itália, loja Vivo, atraso pro ensaio, tudo, menos algo físico - não sei se sou eu ou ela, acho que é isso que a gente vira, um grande acaso - a dois artistas franceses encantadores que desviaram minha semana.
Sophie Calle.
Ela é fundamental na sua forma de transformar a vida em arte, uma espécie que surge com algo que a gente fica se perguntando como foi que isso tudo começou.
"Eu queria que ele me escrevesse uma carta, mas ele não o fazia. Um dia, li meu nome, "Sophie", escrito no alto de uma página branca. Fiquei esperançosa. Dois meses depois do nosso casamento, vi debaixo da sua máquina de escrever a ponta de uma folha. Puxei-a e descobri a seguinte frase: "Quero te confessar uma coisa, na noite passada beijei tua carta e tua foto." Continuei a ler de baixo para cima: "Um dia você me perguntou se eu acreditava em amor a primeira vista. Eu cheguei a responder?" Só que o bilhete não era pra mim: no alto havia um H. Risquei o H. e coloquei um S. Essa carta de amor passou a ser a que nunca recebi."
Grégoire Bouillier.
Espantosa essa capacidade humana de colecionar propósitos. Ele escreve como mulher e levanta questões assexuadas.
"Apesar de todos os inconvenientes tive razão de não trocar e de me recusar a substituir essa lâmpada enquanto fazer isso não tinha significado para mim, a minha obstinação não era absurda de jeito nenhum e foi necessária toda aquela festa para que eu me desse conta e atravessou-me a idéia de que esta talvez só tivesse acontecido para chegar a esse resultado esplêndido e extraordinário, e seja como for, incontestável que foi trocar uma simples lâmpada no banheiro e na frente do espelho por pouco não me acabei de rir diante do meu reflexo e diante do mundo que insiste em resolver problemas a partir deles mesmos, sem nunca se preocupar com o significado que eles tem e devem ter para nós."
Manual about me
minhas idéias fixas não duram mais de uma hora.
evite contrariar com excessivo vigor, por uma questão de entendimento humano, pois num tempo indiretamente proporcional á força e insistência de suas idéias eu faço minhas as suas palavras.
Me declaro de saco empanturrado de gente conceitual. Não existe conceito existe gente e coisa que é, e isso não é um conceito, é uma idéia que pode mudar, uma idéia aberta. Existe uma diferença gritante entre levantar a bandeira de uma idéia ou tê-la despretensiosamente, pelo menos é nisso que tenho acreditado nos últimos tempos, porque acreditar ainda é preciso, mesmo que nessas questões aparentemente ínfimas. Hoje fui presenteada com uma entrevista do Nelson Rodrigues, ele tem um termo interessantíssimo: canalha fundamental. Segundo ele, é o que somos, os jovens. Achei o termo cabível e compatível com o pensamento inicial desse texto. Esse excesso de pensamentos que precisam parecer sólidos – é importante dizer e assumir que só me irrito com essa gente porque já fui legitimamente desse clube, e das piores, daquelas insuportáveis, devo ser ainda, de alguma forma, mas quero, preciso me livrar desse fardo, dessa mala pesada de idéias profundas e bestas. Ele termina a entrevista dando um conselho impagável aos jovens:
- Envelheçam o mais rápido possível!
É de uma genialidade vergonhosa. Discurso de um cara que nasceu velho, mas agora, só agora ele pode ter essa clareza de opinião, e é justíssimo, aceitável, compra quem acha que deve, mas só os que estão aptos á comprá-las, somos nós, iniciantes, porque os outros mais velhos já estão prontos – talvez seja esse o grande mistério: envelhecer cheio de idéias abertas, isso enfraquece o sujeito, mas o enche de si, aquele que ouve, ouve, ouve e no fim é quem sai no lucro, algo como a arte de envelhecer sem a necessidade de falar do que sabe, sem o peso vaidoso de coisas vividas – e pode ser que daqui há uns 20 anos talvez possamos formular algo que realmente mereça ser ouvido e tenha cacique de ser comprado.
Desculpa, mas eu não sei pegar na mão de ninguém, e sinceramente, nem quero. Acho que as coisas, se não são, deveriam estar ou parecer além de tudo isso aqui, sem esforços, como diria uma amiga budista. O que eu mais odeio da vida é essa capacidade que ela tem de mostrar pra gente que acreditar não serve pra nada. Eu to cansada, exausta de acreditar. Me lembra minha infância, parte dela, principalmente quando me foi dada a noticia da inexistência do Noel. O chão me fugiu, nada mais fazia sentido, porque antes tudo fazia: a luz vermelha na janela, o passeio pouco antes da meia noite. Sim, eu sei que esse último era uma bandeira e tanto, mas eu não queria perceber, não mesmo, e se tivessem me concedido um único pedido que fosse, ele seria algo como: não me falem sobre o que não existe mais. As coisas não podem deixar de ser assim, desse jeito. Não faz sentido. Posso? Não eu não queria ter desacreditado tão cedo, porque uma vez que a gente desacredita, pronto, nada mais se consolida, ou ganha cor, tudo se dissolve antes do tempo previsto, tudo deixa de existir antes do prazo de validade, porque a validade passa a ser inventada em prol de um sofrimento menor. Nada passa do ponto, se esgota antes pra que não haja o risco real. Só que isso cansa. E muito, porque a gente dissolve aos poucos, não se morre pra depois nascer, se morre durante um tempo maior, devagar, e parece que cada dor dói mais porque a gente sabe que logo depois virá uma outra que vai um pouco mais fundo. O meu filho não vai saber nada sobre esse tal de Noel, e eu ainda vou alertá-lo sobre a mentira existente em todos os outros lares pérfidos e falsos, só pedirei a ele que não fale sobre isso para o bem geral das suas relações. A ele darei o direito de sofrer com questões reais, quero que ele caia fundo no que existe. Honestamente, eu não entendo, não mesmo, nada, sobre a importância dessa mentira logo cedo. Essa foi a mentira que eu mais acreditei, não foi a única, lógico, mas sem dúvida foi só nela que eu me permiti afundar e depois nascer de novo, que eu me permiti não, essa prepotência que não me deixa, eu caí mesmo, sem saber, sem querer, sem me deixar. Acho que a crença não é de todo mal, ela é bem responsável pela nossa continuidade existencial, mas hoje, sinceramente eu creio pouco pra não doer, não sei deixar por completo, não sei se é o caminho, pra mim ao menos, também não sei que caminho é esse. Mas acho que tem haver com não chorar nunca mais, deve ser porque choro por pouco, vontade de chorar por coisas maiores, sei lá. Ninguém pediu minha opinião na época, e esse erro eu me concedo cometer, sem perguntar eu já vou logo esclarecendo que não existe ninguém que vêm pela chaminé, de trenó com veados ou sei lá o que. Posso até inventar outras coisas, outras pessoas, mas nada desse nível, nada que envolva tanto, que exista em cada shopping, na TV, na escola, na cabeça, na carta, no presente, no sonho. É existência demais pra ser diluída assim, numa conversa de 5 minutos num quarto cheio de brinquedos, muitos presenteados por esse mesmo que acaba de não existir. Noel que me desculpe, mas se depender de mim, ele não engana mais ninguém.
- O que é esta faixa de felicidade que me faz tremer e me dá forças? Desculpem, eu não tinha entendido, não sabia, como é justo aceitar, amar vocês, e como é simples! Luísa, sinto-me como libertado. Tudo me parece bom,tudo tem um sentido, tudo é real. Como eu gostaria de saber explicar, mas não sei dizer. Pronto, tudo está de novo como antes, tudo está confuso. Mas esta confusão sou eu. Eu como eu sou, e não como eu queria ser. E não tenho medo de dizer a verdade, aquilo que não sei, que procuro e não achei. Só assim eu vivo, e posso olhar nos teus olhos fiéis sem sentir vergonha. A vida é uma festa, vamos vivê-la juntos. Só direi isso Luísa, a você e aos outros. Aceite-me se puder. Só assim podemos tentar nos encontrar.
- Não sei se o que disse é certo, mas posso tentar, se me ajudar.
fim
- Como você é linda! Eu fico sem graça como um adolescente. Não acredita que transmite um fascínio verdadeiro e profundo? Por quem está apaixonada? Com quem está? De quem você gosta?
- De você.
- Chegou bem a tempo. Porque sorri assim? Não consigo saber se está julgando ou absolvendo, se está me gozando...
- Estou escutando. Você ia me falar sobre o filme. Eu não sei nada.
- Você seria capaz de começar sua vida do início? Escolher uma só coisa e ser fiel a ela... Fazer dela a razão da sua existência? Uma coisa que se torne tudo, pois a sua fé a torna assim? Você seria capaz? Por exemplo, se eu dissesse: Cláudia...
- Para que lado? Não conheço o caminho. E você seria capaz?
- Devemos estar perto da nascente. Vire aqui. Não esse tipo não é capaz. Ele quer ficar com tudo. Não sabe renunciar a nada. Muda todo dia de caminho por medo de escolher o errado. E está morrendo á míngua.
- E o filme termina assim?
- Não. Começa assim. E depois ele encontra a garota da fonte, uma das que servem água. Ela é linda. Jovem e antiga, menina e já mulher. Autêntica, solar. Não há duvida: ela é a sua salvação. Você estará de branco, com esses mesmos cabelos longos. Apague os faróis.
- E depois? Vamos embora daqui. Esse lugar me assusta. Não parece real.
- Pois eu gosto muito.
- Não entendi quase nada dessa sua história. Um tipo como o que você descreveu que não ama ninguém, não comove, sabia? No fundo a culpa é dele. O que ele espera dos outros?
- Acha que eu não sei disso? Você também é dessas que enchem...
- Você não aceita críticas, não é? Está engraçado com esse chapelão e essa maquiagem de velho! Não entendo. Ele acha a garota que pode devolver-lhe a vida e a rejeita?
- Porque não acredita mais.
- Porque não sabe amar.
- A mulher não faz o homem.
- Porque não sabe amar.
- E, sobretudo porque não quero outra história mentirosa.
- Porque não sabe amar.
- Lamento ter feito você vir até aqui. Peço desculpas.
- Que salafrário você é! Então esse papel não existe?
- Você tem razão. O papel não existe. Nem o filme existe. Não existe nada em parte alguma. Para mim, o caso poderia se encerrar aqui.
fim