quarta-feira, 16 de junho de 2010

de temps en temps, tu t'enfonces

(ao som de Carla Bruni – La Noyée)

não poderia ser outra música, por isso "reacredito" que a arte é que busca a gente.

E agora que eu já decidi você eu realmente não sei mais quantas cervejas devo beber, até onde, com quem, porque tinha pendência antes, e agora tem o livro do Arnaldo aqui do lado que me comove, mas não me você. Sobra. Sobra eu por toda parte, porque quando a gente resolve se desfazer de uma coisa nossa, a gente sobra, a gente fica, e ficar é sempre muito delicado, por isso se fica com outro, porque consigo haja braço pra carregar.

- Porque será que ela ri tanto?

- As pessoas gostam de chorar sozinhas.

- As pessoas não gostam de chorar. Ela está sempre com muita gente.

- Mas ela dorme. Você acha que ela não chora quando vai dormir?

- Eu acho que ela sonha pra não dormir, tem uma música que diz isso, ela acorda quando o sonho foi muito bom e guarda aquela sensação pro resto do dia. É difícil saber a hora de acordar, mas ela deve saber, deve ser por isso que ela ri tanto.

- Ela deve chorar muito, deve ser por isso que ela ri tanto.

sábado, 5 de junho de 2010

o quê? no meu co(r)po


Eu precisava colocar mais coisas pra fora, puro egoísmo e mania de excesso porque eu não tenho nada á dizer.






Tenho me questionado antes de escrever aqui, não era assim antes, exijo forma e conteúdo, mas agora beijo pra um e abraço n'outro.


Eu não sei o que ando fazendo comigo, mas sei que não deve estar certo, é que às vezes dói demais e parece que a gente não vai achar a gente no meio desse tumulto, sim porque é isso, a gente nasce pra encontrar com a gente mesmo, e esse encontro acontece através de varias pontes, pessoas, coisas, livros, quadros, viagens, mas tudo isso é um grande movimento pra fora que volta pra dentro. A minha pergunta: será que precisa, assim, tão longe? Eu estou realmente exausta dessa corrida sem linha de chegada, to cansada, confusa, bêbada, jogada numa mesa de bar, vomitada até sair um líquido azul. E aí eu decido que vou me reposicionar, vou viver na superfície, ser feliz, fazer compras, andar na moda, roupa apertada pra valorizar, cabelo solto, compras, compras, compras muitas pra ocupar essa lacuna, decido ser pra cima como a minha mãe e toda essa gente vencedora, mas eu me agrido mais uma vez, eu me canso, eu vomito, eu não sei mais, ta ficando difícil acreditar que tudo vai melhorar, porque o telefone não toca, e se toca é o cara da imobiliária, poderia ser também o taxista de ontem me pedindo ressarcimento pelas corridas perdidas. Eu quero saber o que tinha ali dentro daquele copo, eu quero saber por que eu não deveria ir pra búzios, eu quero saber por que esse infeliz não liga, e porque esse mais infeliz ainda espera, eu quero saber por que no meu copo, porque virar um copo, porque ir á lugares que só são suportáveis com uma dose cavalar de álcool, porque tanto álcool, pra onde ele vai quando não sai pelo mesmo lugar que entrou, porque no meu copo, o quê no meu corpo, porque vômito azul, porque no meu copo,


o quê?


Uma angústia que não passa, uma infelicidade da porra, uma insatisfação que insiste em criar movimentos, uma cabeça que não entende, que não se entende, que quer fazer dança porque acredita no corpo, mas entrega a mesma coisa de bandeja em endereços diferentes e lamentáveis, era esse corte de cabelo que fudeu com essa auto estima que demorou a chegar, essa mania de agora fazer as próprias unhas, menos uma pessoa para estar, era essa vontade de achar alguma coisa que faça valer essa corrida, de encontrar alguém que traga consigo conforto, essa magreza, porque eu sei que ainda preciso acreditar, esses amigos que a gente não consegue encontrar, que a gente perde e finge que não, esses livros na prateleira que só fazem aumentar, esse medo de não ler todos, é um medo de morrer sem chegar a lugar nenhum, era o medo de escolher o lado errado, de largar o sonho antigo, de não saber mais que sonho é esse, de virar escrava da vida, de tentar virar outra coisa pra amenizar a dor, de beber qualquer coisa, muita coisa, todas as coisas que parecem aliviar, pra adiar


i


s


s


o


(s)




precisava sair de algum jeito




eu dei descarga e escovei os dentes, esse lixo finalmente vai embora.




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segunda-feira, 17 de maio de 2010

bata bem antes de engolir


  • Eu preciso dizer que eu amei aquele blues que você me deu, preciso dizer que pessoas lançam livros interessantes ou não, pessoas se lançam, e isso é interessante.

  • Eu quero dançar pra não ver a vida passar, pra passar dançando pela vida, debochando dela, eu preciso que esse corpo se coloque, se conheça, se desabe em algum lugar cheio de risco, sem pretensão. Porque não há mais pretensão, há uma performance-dança que a gente faz pra gente, e fica bom por isso, há algumas pessoas que a gente encontra por aí que colocam a gente quando já não há mais espaço, há sempre mais espaço quando se trata de gente, e há sempre gente para colocar em qualquer espaço, gente que já está e que aprecia colocar, porque um dia espera também ser colocado.

  • Tem também o professor que eu pensei tanto essa semana, que fala sobre moldura, não diz se é melhor ou pior, diz que estou bem, não pergunta, diz. Eu até melhorei depois disso, melhorei desse estado inerte, estacionado, eu realmente estava bem, mas não lembrava, ele lembrou, me achou mais bonita, não disse, mas eu senti quando falou dessa coisa da moldura.

  • Cabelo: solto sim, agora solto porque agora é a hora, eu precisei me expor um pouco. "de cabelo preso você muda", ele disse que eu era mais jovem cheia de cabelo, mais séria sem. Qual delas sou mais eu? A alegria tem cheiro? Isso é outra coisa, um poema que li, perdi o medo de ler poemas, leio, leio o que for pra ler, me coloco com segurança e voz firme, com vestido longo e cabelo solto. Precisei não soltar um pouco porque acredito na vida, e se ela me tirou os cabelos, penso que é porque não caberia mais tanto esconderijo, era hora da limpeza, e eu limpei.


  • Ele foi embora. Ele entendeu o email, eu entendi o que ele disse. A gente conversou pela primeira vez. Ele pediu desculpas, falou sobre culpa, sobre coisas fortes, sobre as coisas como poderiam ter sido, como foram, sobre como a gente é interessante, assim nessa coisa de afinidade, falou do tempo, do tempo da gente, do tempo que passou, disse que precisava pedir desculpas, me olhou no olho, pegou na minha mão, me pediu um abraço e um ingresso, eu dei os dois. Disse que leu, releu, que era melhor pessoalmente, eu disse da dificuldade dessa coisas de pessoalmente, a gente parou ali, não tem mais espaço pro de antes, agora eu não sei mais o que é. Sei que não morre dentro, morre a coisa, a relação, a relação do jeito que era, mas a coisa fica dentro, o coração bate mais forte quando o acaso cuida de nos encontrar. Blusa verde, dois beijos, o Arnaldo, a fila, o produtor que namora o outro que resolveu me garantir aquilo tudo, aquela coisa toda pouco comovente, mais muita coisa, não sei bem sobre o que vi ali, mas eu vi, ouvi e tudo isso esta latejando aqui dentro. Preciso pensar com calma sobre. Amanha na barca sem falta. Na barca de 7 e 20. Amanha não posso atrasar. Já passa da meia noite, o sono ficou. Onde?


  • Tem a coisa de desacreditar. Falo mais tarde sobre isso. Estou lendo Niet, estou com medo dele, mas vou encarar. To cansada mesmo, quero virar outra coisa. Dizem que ele pode fazer isso e eu acredito.


  • O livro da Paula Parisot: "Gostaria de mastigar o passado e digeri-lo". Uma semana com ela, mas teve o conto da francesa no ônibus com outra Paula, tinha a praia e um personagem que estava morto metaforicamente, ele não sabia amar, ele queria aprender. Eu também.

  • Tudo começou assim com a primeira Paula.


  • Onde é que vai dar?


  • "Queria espremer o vazio até a última gota" P.P.

HOJE EU COMPREI UMA FLOR VERDE PARA PENDURAR NA MINHA LUZ.

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quarta-feira, 7 de abril de 2010

segunda-feira, 8 de março de 2010

o afogamento aprés



Eu já cheguei cansada de não dar, cansada de não dar em nada, exausta de não caber em tudo. Eu estou preocupada comigo porque já não sei mais como fazer, tem uma tristeza que não finda e eu não sei o que fazer de mim com ela, porque ela não tem propósito, não tem motivo real, ela parece que não existe porque eu ando pela praia de Ipanema ás 3 da tarde eu imagino que ela vai embora pouco a pouco a cada passo, ou rapidamente, porque não há tristeza que resista, mas há, há a minha, há comigo, e dói mais saber-se com ela do que ela em si. Ela me come, me leva, me tira, me leva pra dentro de copos com qualquer coisa dentro e eu mergulho lá sem mais querer voltar porque no copo não tem espaço, não cabe tudo isso, no copo só cabe ou eu ou ela. Alguém tem que se afundar por uma questão que não importa o nome, porque os nomes não importam, porra nenhuma de nome, porque você é você e tem coisas muito mais interessantes pra se perguntar na vida do que a última exposição vista, ou quem foi a puta que me pariu, eu to realmente de saco cheio e eu vou matar a poesia, eu vou matar tudo isso que me tira do chão, porque não tem mais espaço pra mim aqui desse jeito, e eu vou cuidar de esquecer toda e qualquer referência pra sempre, só vou falar do que acontece, vou esquecer do que sei e não vou querer saber mais, porque o saber cega, o saber contido eu quero dizer, eu só sei sobre o que eu viro depois de alguma intervenção artística, e é sobre isso que eu quero falar, de gente que sente, sente o que, gente que se emociona, que acredita, que é de verdade, quem tiver que falar que fale por si, não me interesso por terceiros, e é isso que está me levando embora, é isso que está me afundando nesse ou naquele copo de paris de meio litro, ou naquela lixeira que caiu onde não devia, aquela lixeira que não me derrubou, me jogou de volta pro copo, e o copo não sabe o que fazer comigo porque eu não to cabendo, mas eu também não sou de se jogar fora.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

um casamento


quando eu crescer, quero me casar.
(foto de uma amiga que acaba de. uma irmã que de tão especial se casou)

tempo tempo tempo

- "Eu acabou sempre fazendo coisas para não gritar"

- o que é isso?

- trecho, frase do caio. acho que todo mundo na verdade faz tudo que faz pra não gritar, a gente trabalha, bebe, namora, tudo isso.

- não sei se concordo. a bebida por exemplo, a gente bebe justamente pra gritar, pra fazer o que quer, quando e com quem.

- não, a gente bebe pra não gritar e depois acaba gritando.

- não, a gente bebe pra gritar. se a gente grita quando bebe, a gente bebe pra gritar.

- acho que o grito, nesse caso é conseqüência, não causa. essa coisa de bebida... acho decadente as culpas que o álcool carrega. quando a gente bebe pode viver num filme. o beijo pode ser o beijo, e muitas vezes é, porque a bebida tem disso, ela coloca a gente no presente e a gente ao invés de agradecer sofre no dia seguinte. a gente sofre por agir, por sair do lugar, por dar um passo que não se sabia capaz.

- é porque muita coisa começa no álcool e se afoga nele mesmo.

- pois é, mas ás vezes é só isso mesmo que precisava. uma porta que abre e fecha no mesmo dia, e é esse dia que pode compensar todos os outros, esse dia pode ser o grito.

- um dia não deve compensar outro, ele deve ser um dia, e isso deveria ser muito. mas aí tem o futuro. ele é o mais possessivo dos tempos, o passado pode parar a gente, mas em geral é o futuro que é o guia maior.

- não é a gente que tem que pensar nele. pretensão nossa e perca de tempo.

- é, a gente passa a vida querendo ganhar e no final perde a única coisa que depende só da gente ganhar ou não.

- e ganhar é viver só. ganhar tempo e do tempo. pode ser bonito, e deve porque é a arte que imita a vida e não o contrário. o tempo existe e devora (mais uma do caio), não admito ser devorada. a gente precisa curtir com ele, dele e tudo mais. too pensando em organizar um movimento, seria algo como: viva no tempo certo. é algo como se ocupar com o que lhe cabe, a gente precisa pensar em abrir portas, o resto não é com a gente – quando que ela fecha ou quem vai entrar.

- tempo certo? a hora certa é com ou sem horário de verão?

- sem.

- com me parece bem mais orgânico. nada é exato, e falando de tempo. ele por si só já muda de uma pessoa pra outra. 1 minuto de vento no rosto é bem diferente de um minuto com calo no pé.

- tem alguém batendo!

- ta esperando alguém?

- não. atende pra mim!

- ah não! você nunca atende nada, porta, telefone. Hoje eu não vou.

- tudo bem. deixa tocar.

- mas eu não suporto.

- então abra.

- como você agüenta?

- o quê?

- saco! você devia deixar essa porta aberta. já vai!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

mal de cabeça

- doutor, eu não to bem.

- onde dói?    

- a cabeça.

- deixa eu examinar... aparentemente não tem nada. sofreu algo que possa ter levado a...

- ai doutor, tanta coisa né...

- ah, espera, tem uma marca aqui. marca grande! o que é isso? É de nascença?

- não, é que eu tomei um tiro já faz um tempo.

- um tiro? na cabeça? pode explicar melhor?

- eu era criança, não me lembro bem, mas minha mãe diz que eu estava na sala quando uma professora resolveu tirar sarro comigo, eu respondi imediatamente como sempre fiz, e ela revoltada me deu um tiro.

- como assim? uma professora? um tiro? e o que a sua mãe fez?

- me tirou da escola.

- só? e a professora? porque ela fez isso?

- minha mãe diz que é porque eu respondi, que não deveria, que é errado né. hoje eu não teria... mas sabe como é... naquela época, não sei, quando criança a gente acha que pode tudo, hoje eu jamais teria... uma criança sabe... a gente tem de saber nosso lugar.

- sei... mas e aí? depois? foi internado? sorte, eu acho...

- depois? ah, depois eu não sei, nunca soube, nem quis, sabe, porque isso tudo me envergonha um pouco, não gosto de falar, só falei porque vai que isso tem haver, que resolve não sei, não sei doutor, eu tenho andado meio confuso sabe, aí a cabeça dói...

- você trabalha com que?

- trabalho numa biblioteca.

- nossa que bom. e gosta?

- ah, adoro. leio um bocado sabe, gosto de ler, mas quase nunca leio inteiro, já que tem vários eu posso, sei lá, me dar ao luxo, sem parecer esnobe, de ler tanta coisa, tanta coisa olhando pra mim, ás vezes eu termino, mas só quando consigo no dia, cada dia pego um ou dois, algum que alguém indica, não sei, acredito em sinais, sinais não, em mensagens que precisam ser passadas no dia e na hora, por isso não continuo no outro dia, porque se ele, o livro, se ele não acabou é porque já deu o que tinha que dar.

- você usa óculos?

- não preciso. o que tem de mais pra se ver? a gente vê o que agüenta, nem mais nem menos. acredito que tudo tem o tamanho que pode ter.

- olha, pode ser algo dessa natureza... porque, veja bem, uma pessoa que tem alguma deficiência nos olhos, pode até não ser nada, pode ser cansaço, deve procurar um médico da área porque só ele pode te orientar.

- sei... é que eu tenho andado meio confuso... pode ser isso.

- confuso?

- é tanta coisa né... eu ando meio sozinho demais sabe doutor, daí ás vezes eu penso, eu sei lá, sabe, em procurar alguém, pra ficar junto, sabe, passar a vida porque sei lá, é normal, todo mundo busca, encontra, só que tem um problema, olha, eu não sei porque, acho que é por isso que a cabeça dói, acho, eu não, como vou dizer, eu nunca, não, eu não sinto a menor vontade, gosto tanto de ficar sozinho, dessa vida pouca sei lá, uma pessoa uma vez me disse: você é pouco pra mim, e sou sabe doutor, sou mesmo, não sei, não gosto, não, eu gosto, mas gosto muito mais de muitas outras coisas pra pensar nisso.

- mas não tem problema nisso!

- não tem problema? não percebe? doutor as coisas não estão cabendo mais na minha cabeça, acho que pode ser por isso que dói, eu preciso, preciso dividir, me dividir, essas coisas todas, não sei, elas precisam sair sabe, ás vezes parece que minha boca fala sem eu mandar, aí falo sozinho, não posso, sabe doutor, não posso guardar tanta coisa, preciso de outra cabeça pra depositar e depois armazenar coisas novas, se eu não retirar o velho, o novo não entra.

- mas você não tem amigos?

- não amigos que ouvem.

- como assim? seus amigos são surdos?

- tão surdos quanto eu cego. ah, doutor, desde quando os amigos ouvem alguma coisa? faça-me o favor, ainda mais esse tipo de coisa, eles só falam, falam, e eu como educado e respeitoso que sou procuro não repetir a falta daquele dia, eu ouço, muito, gosto, mas aí é mais coisa que entra, daí por isso também parei de encontrar as pessoas um pouco, pra ouvir menos e ter menos coisa pra guardar, porque sei lá, eu guardo mesmo quando não quero, aí fica difícil pra mim depois, fico falando sozinho.

- não sei, eu..

- a cabeça! a cabeça doutor, parou de doer! o que o senhor fez? nossa faz tanto tempo... meu deus, doutor eu vou embora, antes que volte, não sei, tanta coisa pra fazer bem de cabeça, eu quero sei lá, to me sentindo de cabeça vazia, como se diz, com a cabeça na lua, nossa, não sei, preciso fazer, ah doutor, preciso ir, muito obrigado, mesmo, o senhor, eu nem sei viu... cadê? não tem uma receita?

- por hora, eu aconselho ao senhor que leia um livro inteiro e volte só quando terminar.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Sobre as pessoas que se precisam

Olha, eu não entendo muito sobre essa coisa de sentir, de perceber sinais, não quando sou eu a protagonista, mas eu fiquei engasgada, engasgada com essa coisa toda, porque não sei, eu sinto que quando a gente não fala sobre alguma coisa é como se ela não tivesse acontecido, e eu parei nessa sensação, e to incomodada nem sei bem com que, acho que com a ausência de palavras mesmo, não falo muito nesses casos, mas ouço bastante, não tem jeito, o mundo é oral, e eu sempre me sentindo tão outra coisa, é tudo a mesma, a mesmíssima coisa. Então, eu quero te falar alguma coisa que não sei o que é, mas a vontade não passa e tenho pensado com certa freqüência, considerando claro, o tempo pouco que tive pra isso, mas eu, não sei bem, eu me senti bem sabe, embora tenha me sentido mal também, e to começando ou tentando aceitar que as coisas são assim, acontecem e assumem um caminho que independe de quereres diversos. É simples por enquanto: sinto vontade, acredito, e vou, mas é difícil sabe, porque sempre fiz o contrário, sempre fiz o que é melhor, me envolvi com quem deveria, pelo tempo que achei que bastava, e mudei, mudei a partir principalmente desse filme aí que você levou emprestado: separações, é incrível, porque me senti perdendo tempo diante desse filme, a ficção me pareceu mais viva, bem mais viva que eu, e eu mudei assim do dia pra noite, justamente numa fase em que o controle quase que tem montado em mim, e eu me senti bem sem controlar, sabe, porque apesar de toda essa coisa que envolve um acontecimento como esse, eu senti que deveria, e isso pra mim tem bastado mais que qualquer coisa, pelo menos por enquanto, essa foi minha primeira experiência, mas acho que é meio isso, a vida, a vida bem vivida ao menos. Vivida, ao menos. E fiquei agora pensando nessa coisa de separações, existe uma força maior que junta as pessoas que precisam ser juntadas, então, ela que me desculpe, mas eu não vou perder meu tempo com preocupações irrelevantes, deixa que ela cuida do que cabe a ela cuidar, e eu preciso tão somente dar um passo depois outro, preciso aceitar essa condição pacífica, que é tão mais leve e que resulta nisso que a gente chama de viver. Se a gente falasse:

- Eu to fazendo mais do que posso pra continuar aqui.

- Então faça menos.

domingo, 27 de setembro de 2009

Para George corrigido

é que quase sempre quando a gente prefere uma coisa
é porque não conhece outras
a escolha é uma falta de opção
quando a oferta é muita a gente têm é dúvida
é só porque ás vezes é bom falar dessas coisas pra parecer
bacana, bem resolvido ou essas coisas
o fato é que eu não sei sobre coisa alguma
sobre precisar
sobre saber o que é bom mesmo
só sei quando duvido

terça-feira, 22 de setembro de 2009

para george

é que quase sempre quando a gente prefere uma coisa é porque não conhece outras: a escolha é uma falta de opção, quando a oferta é muita a gente têm é dúvida.
é só porque ás vezes é bom falar dessas coisas pra parecer bacana, bem resolvido ou essas coisas, o fato é que eu não sei sobre coisa alguma, sobre precisar, sobre saber o que é bom mesmo, porque quando sei, duvido.
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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

No caminho tem uma pedra?

Eu preciso falar sobre uma coisa que me aconteceu hoje. Eu estava andando, indo em direção a Moreira Cezar. Eu estava indo pra terapia. Quando entrei na Mariz e Barros me aconteceu algo inesperado, muito inesperado mesmo. Eu estava indo pra terapia, como já disse, eu dobrei a rua, entrei na Mariz e Barros quando a orelha da minha sandália começou a pender pra um lado, foi no começo da rua que de repente a sandália que mais me cai bem aparece com um defeito. Eu continuei andando indiferente ao caso, mas eu não podia deixar de olhar, eu no fundo acreditava que tudo ia voltar a ser como antes sem que eu precisasse me esforçar. Era assim que deveria ser. Isso não estava acontecendo! Não comigo, não hoje. E eu continuava andando frenética olhando meu pé direito passo sim, passo não. Até que resolvi ceder, ajeitar, porque aquilo estava me incomodando, me distraindo, me irritando. Eu ajeitava sem nenhum critério e com uma vontade de arrancar aquela coisa errada e ir a pé, mas eu ainda me preocupo com o social, felizmente, ou não. Eu dava cerca de 10 passos e a orelha voltava pra onde nunca deveria ter ido. Isso foi me cansando até que eu sentei na calçada enquanto passava um caminhão de lixo, eu acho, e uma mulher, ou um homem com um cachorro, ou um homem sem cachorro, perto do poste cheio de lixo, e eu sentei perto desse poste porque precisava ser naquela hora o acerto com a sandália, ajeite-a com paciência e mais 8 passos ela tornou a sair do lugar. Eu chorei. Afinal de contas era o que me restava. E por fim já estava atrasada pra terapia, tive que andar mais rápido contando com as paradas que a sandália exigia de mim. E eu chorava. Eu gosto muito dela. Muito mesmo. Era triste ver que ela, ela que eu comprei, também estava me decepcionando. Fui chorando, concertando a sandália, chorando, concertando a sandália, as vezes os dois juntos, as vezes nenhum, e a raiva foi crescendo, fiquei com vontade de socar o poste, o lixo, até que cheguei. Cumprimentei mal o porteiro, arrumei a sandália, chorei mais um pouco, ela me mandou que aguardasse no corredor, e eu odeio quando ela faz isso, porque o corredor não tem cadeira, só lá na frente onde ela não pode ver e não vai até lá chamar, então eu sento no chão em frente a porta e hoje na agência de viagens que fica ao lado tinha muita gente, uma família parecia, todo mundo feliz. E eu lá sentada no chão com a mochila entre as pernas lendo, e eles felizes, e eu lendo, e o cara saiu, me cumprimentou, e ela abriu a porta e um menino de óculos saiu. Acho constrangedor esse encontro na porta da terapia, você sabe que a pessoa acabou de falar coisas, sei lá, acho desconfortável, sabe que ela acabou de se expor, saber que ela tem coisas a tratar, saber que é gente. Entrei na sala e comecei a falar de coisas outras, e só muito depois falei da sandália, porque eu precisava de um jeito falar dela, era só o que eu pensava enquanto tudo acontecia, precisava falar e escrever, eu precisava falar do quanto isso me incomodou, do quanto estou, do quanto uma sandália pode alterar o caminho de uma pessoa, do quanto eu precisava estar com aquela sandália, comecei falando de outra coisa que acabou nisso e eu chorei e falei da sandália, e chorei, e falei da sandália. Eu posso dizer que hoje eu chorei por causa da sandália.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

"O maior preço que se paga pelo amor é ter de ter alguém junto, não se pode ficar sozinho, que é sempre tão melhor"

A.W.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

vamos fugir?


sobre a distância

a distância aproxima de um jeito bonito e cheio de cor.
a distância aproxima de um jeito bonito e cheio.
a distância aproxima de um jeito bonito.
a distância aproxima de um jeito.
a distância aproxima de um.
a distância aproxima de.
a distância aproxima.
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domingo, 2 de agosto de 2009

Ainda sobre essa coisa de crescer

Dizem que faço filmes sobre homens que se recusam a crescer. Sou um homem de 41 anos que ainda vê as pessoas mais velhas como gente infinitamente mais sabia do que eu. Não sei se sou maduro, mas sei que falar de imaturidade é falar da nossa capacidade de perder e de curar, ou não, a dor da perda. Talvez por isso haja muitos jovens nas minhas historias: a juventude tem na imaturidade sua força de descoberta. Judd Apatow

com tempo e cor

A máquina
da alma
com os anos se trava,
e dizem:
- Ao arquivo!
Acabou-se.
Um de menos!
Maiakóvski

Apareço, prometo.

Ontem eu comprei material escolar. Tinha esquecido o quanto isso me dá prazer, essa coisa de início, caderno em branco, caneta cheia, lápis grande, borracha intacta, apontador virgem, tudo isso. Tudo isso é vida, é verdade e não é feio, ou pouco. Estive pensando, e acho que essa coisa de crescer não é de todo ruim. Não, mentira, não é isso. Pensei algo como "crescer e aparecer" e anotei á noite, ontem também quando estava com um sono que há muito tempo não sinto, acho que por causa daquela taça de vinho que tomei com uns amigos, uma amiga inclusive disse que estava tudo combinando: a taça, meu sobretudo, a cadeira, a mesa redonda e pequena, o bar mexicano, a musica do U2, as fotos na parede de carros, o barulho das pessoas falando cada vez mais alto, o garçom estava sofrendo algum problema afetivo, o outro que sofria algum outro problema que já não sei qual era, percebi que sua voz era baixa e a articulação péssima, sei que ali havia problema de alguma espécie, algo que saiu, virou fala mal dita, sorte dele. Mas ela, a minha amiga, não achava que tudo combinava, não, pelo menos não disse, só falou do vinho, do meu figurino, da meia, do sobretudo e tal, o resto eu que achei agora, aquilo tudo era uma coisa só bem lá no fundo. Mas o assunto não é esse, é outra coisa, essa coisa de crescer. Então, pensei que crescer é ficar abarrotado de certezas e gostos já sacramentados, e essa coisa de sacramento me incomoda, é isso que me incomoda. A gente precisa de muita segurança pra virar alguma coisa de fato, por isso o ensaio constante, ensaiar pra vir a ser um dia, quem sabe. Se bem que pensando agora a gente é como qualquer outra coisa que a gente decide e muda de idéia, não precisa ser pra sempre, deve poder mudar e se não puder também eu invento. Que saco isso também, as coisas todas já prontas, parece que alguém manda e a gente sempre obedecendo, um alguém comum mandando e desmandando sem sequer dar a cara á tapa. Eu só preciso acatar e mudar um pouquinho alguma coisa qualquer pra parecer que a regra é invenção minha. Mas eu sei, agora eu sei, que eu preciso obedecer, porque eu não sei bem, não mesmo, até sei, acho que é pra me enquadrar nisso que chamam de vida, pra viver mesmo, nunca pensei, não mesmo que eu fosse tão amadora nessa coisa de vida, a gente, a gente não, eu preciso aceitar isso, isso e muitas outras coisas, aceitar só, só e só. Eu prometo, prometo não, mas vou tentar. Esse período eu me comprometo a fazer as pazes com a vida, se é que um dia a gente esteve numa boa, mas a culpa não é, nem nunca foi minha, pode ver quanta gente aí também não se dá com ela, acontece que ela é muito difícil, autoritária, não sei, mas fazer o que, eu dependo dela e acho que isso não deve mudar, há que se ter paciência e entender que tem gente que é difícil mesmo.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Pérola de Clarisse

Ser de uma forma qualquer. O que é isso? Giramos e giramos, todos nós, e sempre voltamos ao mesmo ponto. É tudo tão incerto... Se nada houvesse de mais evoluído, a ostra em sua concha deveria bastar. Não tenho a concha, mas eu não sou solitária não, eu tenho muitos amigos. Tenho condutores por mim, parada ou em movimento, eles apreendem todas as coisas e as conduzem através de mim. Eu me animo e escrevo, sinto com os dedos e fico feliz, eu só estou triste hoje porque eu estou cansada, de modo geral eu sou alegre. Tocar com a minha uma outra pessoa é quase o máximo que eu posso resistir. Bom, agora eu morri, por enquanto estou morta. Eu acho que quando eu não escrevo, eu estou morta. Vamos ver se eu renasço de novo.

Trecho de uma entrevista exibida na exposição "Clarisse Lispector – A hora da estrela"


 


 

a chave de casa


- A chave de quem?