sábado, 30 de maio de 2009

O fim do Noel

Desculpa, mas eu não sei pegar na mão de ninguém, e sinceramente, nem quero. Acho que as coisas, se não são, deveriam estar ou parecer além de tudo isso aqui, sem esforços, como diria uma amiga budista. O que eu mais odeio da vida é essa capacidade que ela tem de mostrar pra gente que acreditar não serve pra nada. Eu to cansada, exausta de acreditar. Me lembra minha infância, parte dela, principalmente quando me foi dada a noticia da inexistência do Noel. O chão me fugiu, nada mais fazia sentido, porque antes tudo fazia: a luz vermelha na janela, o passeio pouco antes da meia noite. Sim, eu sei que esse último era uma bandeira e tanto, mas eu não queria perceber, não mesmo, e se tivessem me concedido um único pedido que fosse, ele seria algo como: não me falem sobre o que não existe mais. As coisas não podem deixar de ser assim, desse jeito. Não faz sentido. Posso? Não eu não queria ter desacreditado tão cedo, porque uma vez que a gente desacredita, pronto, nada mais se consolida, ou ganha cor, tudo se dissolve antes do tempo previsto, tudo deixa de existir antes do prazo de validade, porque a validade passa a ser inventada em prol de um sofrimento menor. Nada passa do ponto, se esgota antes pra que não haja o risco real. Só que isso cansa. E muito, porque a gente dissolve aos poucos, não se morre pra depois nascer, se morre durante um tempo maior, devagar, e parece que cada dor dói mais porque a gente sabe que logo depois virá uma outra que vai um pouco mais fundo. O meu filho não vai saber nada sobre esse tal de Noel, e eu ainda vou alertá-lo sobre a mentira existente em todos os outros lares pérfidos e falsos, só pedirei a ele que não fale sobre isso para o bem geral das suas relações. A ele darei o direito de sofrer com questões reais, quero que ele caia fundo no que existe. Honestamente, eu não entendo, não mesmo, nada, sobre a importância dessa mentira logo cedo. Essa foi a mentira que eu mais acreditei, não foi a única, lógico, mas sem dúvida foi só nela que eu me permiti afundar e depois nascer de novo, que eu me permiti não, essa prepotência que não me deixa, eu caí mesmo, sem saber, sem querer, sem me deixar. Acho que a crença não é de todo mal, ela é bem responsável pela nossa continuidade existencial, mas hoje, sinceramente eu creio pouco pra não doer, não sei deixar por completo, não sei se é o caminho, pra mim ao menos, também não sei que caminho é esse. Mas acho que tem haver com não chorar nunca mais, deve ser porque choro por pouco, vontade de chorar por coisas maiores, sei lá. Ninguém pediu minha opinião na época, e esse erro eu me concedo cometer, sem perguntar eu já vou logo esclarecendo que não existe ninguém que vêm pela chaminé, de trenó com veados ou sei lá o que. Posso até inventar outras coisas, outras pessoas, mas nada desse nível, nada que envolva tanto, que exista em cada shopping, na TV, na escola, na cabeça, na carta, no presente, no sonho. É existência demais pra ser diluída assim, numa conversa de 5 minutos num quarto cheio de brinquedos, muitos presenteados por esse mesmo que acaba de não existir. Noel que me desculpe, mas se depender de mim, ele não engana mais ninguém.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Etapa 2 – fragmentos 8 ½ de fellini

- O que é esta faixa de felicidade que me faz tremer e me dá forças? Desculpem, eu não tinha entendido, não sabia, como é justo aceitar, amar vocês, e como é simples! Luísa, sinto-me como libertado. Tudo me parece bom,tudo tem um sentido, tudo é real. Como eu gostaria de saber explicar, mas não sei dizer. Pronto, tudo está de novo como antes, tudo está confuso. Mas esta confusão sou eu. Eu como eu sou, e não como eu queria ser. E não tenho medo de dizer a verdade, aquilo que não sei, que procuro e não achei. Só assim eu vivo, e posso olhar nos teus olhos fiéis sem sentir vergonha. A vida é uma festa, vamos vivê-la juntos. Só direi isso Luísa, a você e aos outros. Aceite-me se puder. Só assim podemos tentar nos encontrar.


 


 


 


 

- Não sei se o que disse é certo, mas posso tentar, se me ajudar.


 

fim

Etapa 1 – fragmentos 8 ½ de fellini

 - Como você é linda! Eu fico sem graça como um adolescente. Não acredita que transmite um fascínio verdadeiro e profundo? Por quem está apaixonada? Com quem está? De quem você gosta?

- De você.

- Chegou bem a tempo. Porque sorri assim? Não consigo saber se está julgando ou absolvendo, se está me gozando...

- Estou escutando. Você ia me falar sobre o filme. Eu não sei nada.

- Você seria capaz de começar sua vida do início? Escolher uma só coisa e ser fiel a ela... Fazer dela a razão da sua existência? Uma coisa que se torne tudo, pois a sua fé a torna assim? Você seria capaz? Por exemplo, se eu dissesse: Cláudia...

- Para que lado? Não conheço o caminho. E você seria capaz?

- Devemos estar perto da nascente. Vire aqui. Não esse tipo não é capaz. Ele quer ficar com tudo. Não sabe renunciar a nada. Muda todo dia de caminho por medo de escolher o errado. E está morrendo á míngua.

- E o filme termina assim?

- Não. Começa assim. E depois ele encontra a garota da fonte, uma das que servem água. Ela é linda. Jovem e antiga, menina e já mulher. Autêntica, solar. Não há duvida: ela é a sua salvação. Você estará de branco, com esses mesmos cabelos longos. Apague os faróis.

- E depois? Vamos embora daqui. Esse lugar me assusta. Não parece real.

- Pois eu gosto muito.

- Não entendi quase nada dessa sua história. Um tipo como o que você descreveu que não ama ninguém, não comove, sabia? No fundo a culpa é dele. O que ele espera dos outros?

- Acha que eu não sei disso? Você também é dessas que enchem...

- Você não aceita críticas, não é? Está engraçado com esse chapelão e essa maquiagem de velho! Não entendo. Ele acha a garota que pode devolver-lhe a vida e a rejeita?

- Porque não acredita mais.

- Porque não sabe amar.

- A mulher não faz o homem.

- Porque não sabe amar.

- E, sobretudo porque não quero outra história mentirosa.

- Porque não sabe amar.

- Lamento ter feito você vir até aqui. Peço desculpas.

- Que salafrário você é! Então esse papel não existe?

- Você tem razão. O papel não existe. Nem o filme existe. Não existe nada em parte alguma. Para mim, o caso poderia se encerrar aqui.


 

fim

terça-feira, 12 de maio de 2009

estrangeiro

Eu preciso dizer uma coisa. É que as coisas mudaram, sabe. Eu não rio mais de tudo, não tenho mais cabelo grande e nem acredito mais em pessoas, você acredita? Pois é, quem diria, dei agora pra ir contra o que sempre fui a favor. Mas a vida é assim né? Deve ter haver com essas mudanças que desencadeiam sofrimento exacerbado que quase sempre levam a alguma coisa muito boa depois. Eu apenas tenho me ocupado em estar nas coisas mais simples sem muitos artifícios. Tá bom, não é tão fácil não. Mas pelo menos eu me esforço, e você? Continua aí parado, andando, sei lá, mas sempre aí, com essa mesma cara, postura. Que saco isso! Me irrita, sabia? Queria que você fosse outro, diferente daquele, porque eu já não sou mais aquela. E essa não se interessa por aquele, mas por um outro, quem sabe? E mesmo sendo outro você ainda seria um pouco daquele, isso facilitaria a nossa situação. Mas não, você parou. E não me venha com a história de que eu ainda nem vi nada, de que é só impressão. Não, eu sei que não é. Essas coisas a gente não precisa conversar mais do que 1 minuto pra saber. Você continua manso. Eu odeio gente mansa. Que saco! Com as mesmas histórias, os mesmos tempos. Eu gostaria, é isso que vim te dizer, que você mudasse, alterasse, acelerasse seu tempo. Isso, pra que a gente falasse pelo menos do passado, pelo menos. O passado é tão bonito, sabe. Esses dia mesmo, estava lendo uma espécie de diário que escrevia lá pelos 13 anos, é impressionante como a dor vira outra coisa, quando é nossa, quando a gente lê, ficou bonito sabe, parecia filme, os encontros, as questões, tudo pequeno, no seu tamanho e lindo. É por isso que você não tem o direito de se materializar dessa forma comum. No presente as coisas tem de ser grandes. Eu queria você estrangeiro. Gente nova. Será que não dá pra você fingir pelo menos? Me olhar diferente, sei lá. Mudar de profissão, ter outra banda, mudar o corte de cabelo, tudo bem, eu sei que você não mora mais em santa, mas botafogo? Regredir também não dá. Botafogo só tem sinal, carros e pessoas correndo. Então, é meio isso. E é bom que você faça alguma coisa, não por mim, por você. Será que é possível? Só o cabelo pelo menos, eu prometo tentar. Pometo não. Eu vou tentar.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

domingo

- Hoje você está tão feliz. Ontem você não me parecia.
- Mas ontem era domingo.
- Como é que você sabe que ontem era domingo?
- Muito simples: ontem eu estava triste.
- E daí? Essa explicação não me parece lógica.
- Por que?
- Ainda ontem eu perguntei a você que dia era e você não soube responder...
- É que na hora que você me perguntou, eu devia estar feliz. É isso...

não costumo colocar trechos sem autoria, mas nesse caso abri excessão, se tratam de palavras enviadas por uma amiga que veste essa sensação. é tão legítimo, tão dela que era preciso que eu, ou qualquer pessoa, fizesse com que isso fosse parte de algo que pertence a um todo. hoje conversei no telefone com uma outra amiga de pouco tempo que me faz um bem, que me traz vida. percebo pouco a pouco que são essas pessoas que carregam minha vida em suas mãos, minha organicidade depende de alguns raros contáveis no dedo.

fica aqui o registro de uma menina que têm uma questão interessante com o domingo.
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sexta-feira, 8 de maio de 2009

questão de ego

"um homem com uma dor, é muito mais elegante"

leminski

eu não sei o porque disso tudo, mas eu prometo que vou embora quando entender. não quero solucionar, é sério, quero, quero não, preciso, preciso entender pra depois então desistir. desistir já no fim, disistir no último dia é uma boa, ninguém saberia que foi desistência, posso vibrar comigo, posso me alforriar por mim sem medo, medo nenhum de ser mais uma crise vaidosa. não sou tão vaidosa assim, vai. faz tempo que isso já foi embora, essa coisa de vaidade. mas parece que não percebe. será que dá pra entender que o que ainda está me mantém acordada, me faz insistir em ser alguma coisa. desse jeito eu acabo por desacreditar de mim. me divido e a questão é saber o que fazer com o que fica. não dá pra ficar só com essa parte, essa parte é pouco, frágil, alma pura não aguenta esse peso todo. não aguenta ir nem ficar. ficar, ficar, ficar pra que? e com o que? a gente vive pra aprender a viver, se cerca de defesas pra que tudo aparentemente doa menos, aparentemente não, realmente, tenho certeza que dói menos, tem menos vida, mas aí é outra questão, o caso é que doer dói menos, bem menos, amortece as quedas, é isso, não elimina, amortece, e agora sugerem que jogue fora tudo isso? o discurso é tão convincente que dá enjôo. enjôo de si, agora me diga uma coisa: o vômito vai pra onde? sai de onde?


"procuro nas coisas vagas ciência
(...) e a alma aproveita pra ser a matéria e viver"
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a lua hoje merecia mais . . .
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não tenho estrutura e nem sei se mereço apreciar uma lua como essa. . .

quarta-feira, 29 de abril de 2009

astrologicamente falando

(...)
"Na realidade, em todas as Eras houve dificuldade em se equilibrar os dois signos envolvidos. A humanidade passou boa parte da Era de Peixes tendo sua capacidade de análise e discernimento (simbolizada por Virgem) bloqueada por crenças impostas de cima para baixo. Quando, a partir do século XIX, o espírito científico começou a se desenvolver, daí foi Virgem que assumiu a supremacia. Descartou-se tudo o que não se podia explicar e iniciou-se um período de excessiva racionalidade e fragmentação, que resultou no surgimento em massa de doenças emocionais decorrentes da falta de conexão com algo maior (por que você acha que tantas pessoas se drogam no mundo?).

A Era de Aquário não é, portanto, uma Era que automaticamente vai nos conduzir a fraternidade, a um entendimento extraordinário de quem somos e do que o mundo é, a uma nova forma de organização, a uma descoberta sem precedentes de nosso poder mental e a um uso adequado dele. E por que não? Porque Aquário não é um signo melhor do que Peixes, assim como Peixes não é melhor do que Áries, assim como nenhum signo é melhor do que outro. Em cada Era, nós temos escolhas a fazer. A tecnologia, principal promessa da Era de Aquário, tanto pode nos levar a uma separação do nosso lado instintivo, tornando tudo excessivamente lógico e frio, como pode ser tão aperfeiçoada que nos leve a sanar os problemas que até agora criamos com o uso dela. A penetrante mente aquariana tanto pode nos levar a finalmente rompermos com antigos comportamentos danosos quanto nos trazer agitação, alienação e rebelião, sintomas já presentes atualmente. A Era de Aquário será, sem dúvida, caracterizada por uma grande mudança em relação às outras Eras, porque isto faz parte do símbolo de Aquário. Mas isto nos levará a um mundo realmente melhor? Afinal, quem tem razão: os intelectuais que prevêem um mundo frio, excessivamente racional e controlado, ou os místicos que falam em uma era de amor?

O potencial da Era de Aquário seria para que nos víssemos como uma só raça (já que até agora nosso passatempo foi nos aniquilarmos mutuamente), e, a partir disso, nos uníssemos, sendo capazes, por esta razão, de avanços inimagináveis, e de criarmos um novo sistema de vida, que rompesse integralmente com o que de negativo vivemos até aqui. Uma Era de Aquário realmente avançada também não descartaria que viéssemos a realizar um intercâmbio com outros habitantes de outros planetas, seja através do desenvolvimento de tecnologias revolucionárias, seja porque finalmente estaríamos prontos para isto. Uma Era de Aquário ‘bem feita’ teria de ter presente os atributos positivos de Leão, como a valorização do indivíduo e da criatividade, do coração e do calor, para que a sociedade não se tornasse por demais fria, mecânica e lógica. O bem estar do indivíduo (Leão) teria de ser levado em consideração tanto quanto o bem estar do grupo (Aquário), pois um não pode predominar sobre o outro sem que isto gere desequilíbrios. Só que a Era de Aquário não vai trazer tudo isto ‘de bandeja’. Nós teremos de conquistar esta ‘promessa’ positiva que está embutida nela. Estaremos sendo chamados a escolher tanto quanto fomos em outras Eras. Por exemplo, a Era de Peixes poderia ter sido muito especial em termos de compaixão, abrandamento de nossas características mais destrutivas e agressivas, e não o foi. Ao invés disso, apareceu o lado negativo de Peixes, como a cegueira, a incompreensão e a histeria (as Santas Inquisições, por exemplo).

Você talvez se pergunte o que pode fazer, como indivíduo, para que possamos realmente começar uma nova Era, um novo tempo, transpondo para o coletivo o potencial que já existe em indivíduos mais evoluídos, mas que nunca existiu em escala maior. Simplesmente desenvolva o lado positivo de Aquário. Olhe mais para o coletivo. Interesse-se mais por ele. Não veja a sua vida como limitada apenas a sua casa e às pessoas próximas. Enquanto houver pessoas miseráveis e escravizadas no mundo mesmo o mais lindo recanto com a maior harmonia poderá ser atingido. Aquário quer dizer que todos somos um povo só. A hora em que nos virmos como o povo da Terra, que é por ela responsável, aí sim estaremos entrando em uma nova Era. Sem o desenvolvimento disso, a Era de Aquário será como todas as outras, até que resolvamos mudar. A escolha será de cada um de nós. "

ando pensando muito sobre.
existe tanta coisa para além-tudo.
deve explicar alguma coisa.
o artigo inteiro é bem interessante.
tem dimensão, se distancia da escala óbvia humana e medíocre.
percebi que tenho pânico do que é médio.
é a única coisa que sei não querer.
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terça-feira, 21 de abril de 2009

coresnocaio - sobre tantas pérolas

"Fico tão cansada às vezes, e digo para mim mesma que está errado, que não é assim, que não é este o tempo, que não é este o lugar, que não é esta a vida. (...)então eu não sentia nada, podia fazer as coisas mais audaciosas sem sentir nada, bastava estar atenta como estes gerânios, você acha que um gerânio sente alguma coisa? quero dizer, um gerânio está sempre tão ocupado em ser um gerânio e deve ter tanta certeza de ser um gerânio que não lhe sobra tempo para nenhuma outra dúvida..."

"Olha, eu estou te escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo o meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não queria que fosse assim. Eu queria que tudo fosse muito mais limpo e muito mais claro, mas eles não me deixam, você não me deixa"

"Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente?
Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais -por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia –qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido. Eu prefiro viver a ilusão do quase, quando estou "quase" certa que desistindo naquele momento vou levar comigo uma coisa bonita. Quando eu "quase" tenho certeza que insistir naquilo vai me fazer sofrer, que insistir em algo ou alguém pode não terminar da melhor maneira, que pode não ser do jeito que eu queria que fosse, eu jogo tudo pro alto, sem arrependimentos futuros! Eu prefiro viver com a incerteza de poder ter dado certo, que com a certeza de ter acabado em dor. Talvez loucura, medo, eu diria covardia, loucura quem sabe!”

“Ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, angústia, duas décadas de convívio cotidiano, mas ando, ando, tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essas história de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, ,veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, cara.”
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"Pensar é ainda fuga:
aprender subjetivamente a realidade de maneira a não assustar.
Entrar nela significa viver."
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trechos submersos do caiofernandoabreu
eu preciso de palavras que me levem embora daqui, como essas, mas sem fim.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

algo cenicamente também (ainda) não dito

Andei pensando sobre essa coisa de dizer algo. A necessidade, a urgência de dizer. Pode ser uma angústia pessoal: a dificuldade de dizer o que precisa ser dito, mas acho que não. Talvez seja o mal do século: falar alguma coisa sobre uma outra, que dá na outra, que dá na outra, que dá na outra...

Vamos lá.


Você acende o abajur do canto, apaga a luz mais forte pra criar um clima e começa a falar. Diria, por exemplo: Como você sabe, a gente, as pessoas infelizmente têm essa coisa, emoções... Talvez eu perguntasse: Infelizmente? Você continua: Seria tão bom se pudéssemos nos relacionar sem que nenhum dos dois esperasse absolutamente nada, mas infelizmente (você insiste), infelizmente nós temos emoções.

Tem uma citação do caio que é assim:
“as pessoas falam coisas,
e por trás do que falam há o que sentem,
e por trás do que sentem há o que são”.
É por causa dessa falta de controle que você diria isso, eu imagino. Essa coisa de não saber quando chegou o fundo é difícil de lidar.

Há meses que eu espero pelo momento certo, pelo texto certo. Essa coisa de expectativa só serve pra deixar a gente sem ter o que dizer na hora.
(encho o cálice de vinho) Bom, nesse silêncio eu preciso fazer alguma coisa, talvez coloque uma música ou ensaie um gesto, ou talvez não faça nada. Por um momento eu posso pensar em chegar mais perto com o coração a mil, mas você não diz nada. Eu penso num corredor escuro, e me vejo andando como uma cega que pressente o vazio, o poço que vai afundar. Penso em acender a luz, dar uma gargalhada ridícula, acabar de vez com isso. É muito fácil fingir que tudo estaria bem, que nunca houve emoções. Logo depois, um minuto depois eu penso em deixar o cálice na mesa e ir em direção a esse cara que olha pra dentro. Penso em dar um beijo. Vou desejar decifrar esse corpo com a língua, romper todas as barreiras do medo do nojo, beber todos os líquidos, sugar todos os cheiros até que a gente possa virar um só, de luzes apagadas e roupas no chão. Logo em seguida percebo que eu não serei ele e que ele não sou eu. Desejaria manter esse estado, esse desejo. Mas ele não saberá de nada se eu continuar com medo que uma palavra ou gesto destrua essa cena bem armada, em que cada vez mais mergulho em mim, nas minhas emoções, enquanto ele esfrega as mãos no joelho quase inocente e me espera terminar o que comecei.
Você continuaria ausente de tudo. E a cada manhã eu vou me olhar no espelho, notar novas rugas, certa do futuro que me espera. Não poderei voltar atrás, e sei que qualquer coisa que eu diga não vai dizer o suficiente pra me levar pro céu ou pro inferno. Mas sei também que tudo vai passar um dia, tão de repente quanto veio, ou lentamente, não importa. Só não vou saber que naquele momento exato eu teria a beleza insuportável da coisa inteiramente viva. Eu acendo o abajur do canto da sala depois de apagar a luz mais forte pra criar um clima. E finalmente, começo a falar.
uma adaptação bem livre do conto natureza viva do caio.
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domingo, 29 de março de 2009

falta

É um estado antes de qualquer coisa doído. Não saber muito bem o que se é, o que será, e principalmente o que se quer ser. O medo é de afundar e não voltar mais, de mergulhar em si de uma maneira. Abismar-se. Não sei mais validar relações, considerar questões externas, é um lugar meu, egoísta e feio. Resolvi marcar um encontro. No que deu? Não deu, parece aversão a qualquer gesto ou ação que aflore sentimentos que venham do mundo. Quando decidi no início do ano que passou que daria uma chance pro mundo, estava era tentando me salvar dessa miséria que me torno quando aceito minha condição essencial. Eu queria poder ser como se deve, como se dói menos, mas acabou que doeu mais. Voltei cheia de cortes que não sei se saram. Voltei longe de mim e longe do que achei que havia me aproximado. Melhor, não voltei ainda, eu acho. Viajo de volta pra mim. Pessoas se perdem e largam minha mão justamente na hora em que poucas mãos me restam. Uma pessoa em especial me faz falta, as outras também, mas ela é alma pura, é de verdade. A exposição dos gêmeos me lembrou-a, a fossa pós-encontro recheada de choro exacerbado me fez resistir a uma ligação. “Você tem essa coisa de chorar...”. Ela disse uma vez, e participou de muitos acessos. Vi uma peça “Bodas de sangue”, tinha uma menina em cena que só eu e ela sabemos quem é – pra gente, é claro. E mais uma vontade de ligar... Pessoas se perdem. O menino do encontro me disse algo como: é bom pensar em que tipo de pessoa você está falando... Ele quis dizer: a gente perde o que nunca teve. Senti, no olho dele. Ele é estranho, tem um tempo diferente, mas é interessante. Uma amiga certa vez me disse que o que fazia com que ficasse por mais tempo com um rapaz era a vontade que tinha de decifrá-lo. Tem gente que “esfinge”. Não tenho muito o que falar, aliás tenho muito, por isso a dificuldade. Ontem vi um filme chamado: “Império de sentidos”, agucei sentidos, o filme me levou um pouco mais pra mim. Primeira vez que fui minha. A única coisa que tem me movido é a necessidade de sair do chão, a acrobacia é a única que permanece, ali, comigo pro que der e vier. E eu a deixei por um ano. Taí a prova de que não sou muito boa gente. Trapézio de balanço, a gente fica paralela ao teto, voando, depois se lança para os pés, a gente acredita nos pés, na capacidade das nossas pernas de nos sustentar, tanto quanto o braço, eu tremi, mas fui, acreditei. A única coisa que tem me restado é acreditar em mim, em partes de mim, até que eu possa acreditar no pacote. Por agora, acredito no meu pé, nas minhas pernas também, mas essencialmente nos meus pés. O trapézio é meu único. Meu único, não sei bem o que, mas sei que é. Senti vontade de ligar também depois dessa situação com o trapézio. Pode parecer que não ligo por orgulho, mas não é. Não ligo por estar sangrando. Por acreditar numa ligação para além da invenção de Graham Bell, por saber que ela me sabe sem que eu diga uma palavra, por não saber dizer uma palavra, principalmente por pensar que se não for agora, não será mais, nunca mais, porque no fundo nunca foi. Tenho saído muito com meus pais, acho que é uma busca de mim, uma pesquisa autobiográfica, eles são os únicos que não me deixam.

segunda-feira, 23 de março de 2009

algo que passa

É horrivel perceber que algumas relações são frágeis, de vidro barato.

Se notar ausente de todos ou quase todos que outrora eram parte de algo, parte do vazio. Quando a mudança parte de dentro, não há pedido, carta, lampejo que te faça ir contra essa força toda. Veio de dentro, desculpa, mas agora, por agora, é fundamental que seja assim. Bom, caso resolva entender, paciência se não. É por essas e outras que pessoas se perdem. Quem ficar vence o jogo. Jogo difícil, ingrato, que exclui por hora, mas não, nem nunca pra sempre, porque quem é pra ser junto, é. Sem rodeios ou questões que de tão pequenas são risíveis. Ando estafada de julgamentos, cobranças descabidas, as relações são sensíveis, supremas, quando pequenices semelhantes atordoam pode-se dizer que ali não há - naquele exato momento - ou nunca houve o essencial, a comunicação que independe do que se faça, se diga, algo que acontece, que paira, que independe de vontades, vaidades.


Que vença o que é sem rodeios.
tempo
inspiro
tempo
inspiro
tempo
inspiro

segunda-feira, 2 de março de 2009

music

"sentimos que nunca acaba de caber mais dor no coração"




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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

estado pós magia embaçada

"(...)pois são completas as coisas quando acontecem depois de anunciadas por dentro, criando um estado capaz de receber o que virá de fora.
Como um telegrama, um telefonema, um aviso qualquer previamente anunciando a chegada, para que se possa arrumar a casa, tirar a poeira dos cantos, preparar a cama, trocar lençóis, limpar pratos, poltronas, recebendo o hóspede ao mesmo tempo desejado e inevitável"
por fim:
"acabo sempre fazendo coisas para não gritar"
pra começo:
"Mas primeiro prova da terra. Depois, voa"
caio
mais tarde preciso escrever sobre o carnaval, coisas que ouvi, sínteses a respeito, não sob meu ponto de vista (pois ele anda exaustivamente embaçado), mas relatos desses "cachorros loucos" que se deixaram soltar e caíram de cabeça nessa magia emocionalmente digna de rede de segurança.
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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

um bom começo

- É que as vezes parece que não tem mais nada dentro, carol.
era só isso que eu precisava dizer.
e não disse, por não saber dizer o que realmente precisa ser dito
(que não é necessariamente o que se passa, mas sim a precisão do momento em si).
rodeio
rodeio
rodeio
até não chegar em nenhum lugar
acho que a grande questão é chegar (grande e medonha)
quando sinto o rio seco,
quando a criação não inventa mais,
bate um medo danado do fim.
parece que é a morte chegando
o ócio criativo
a dor de estar no limite
ausência de si
presença de um outro anônimo
a ignorância diante do fim
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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

mudança

existe alguma coisa aqui dentro que dói, que pulsa, me leva pra longe sem mapa de volta. ouvi dizer que ando instável, inquieta, a vida nunca foi tão difícil de agarrar. essa coisa de feito artístico, não sei se pra mim é uma questão de necessidade ou de honra, ou as duas coisas.

- porque você não pára com isso?
- se parar, eu morro.

e morro mesmo.

a escrita tem me levado embora. ela realiza e me alivia no "instante-já" denominado por clarisse. nasci para o mérito tabelado, não istantâneo. nasci para não ouvir os aplausos e vir atrás pulsante por saber no meu âmago que foi tudo culpa minha. não quero barulho por mim, nem pra mim. quero fazê-lo eu mesma aqui dentro. festa minha, comigo, sem cigarro e sem alcool. hoje, me condiciono como ferida exposta. o ator é a coisa viva em si. ando morrendo aos poucos, acho. não sirvo mais. essa morte é pra fora. ando morrendo do social, pro social. não sei se quero - se a dúvida se manifesta é porque não quero, não posso, não agora, não mais.

a literatura brasileira me espera.
sala de aula, please.
pós rabisco de um intervalo que não acontece.




.I want love.

domingo, 11 de janeiro de 2009

fato consumado.

quando pouco, basto.
(gosto mais assim. seco e pouco, como deve ser)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Um Romance não escrito - Virginia Wolf

"A vida é o que se vê nos olhos das pessoas; a vida é o que elas aprendem e, depois que o aprenderam, jamais, embora procurem escondê-lo, deixaram de estar cientes - de quê? De que, parece, a vida é assim. (...) em cada rosto a consciência. Estranho, porém, como desejam dissimulá-la! Há sinais de reticência em todos os rostos: lábios cerrados, olhos sombrios, cada uma das 5 pessoas faz alguma coisa para esconder ou anular a consciência. Uma fuma; outra lê; a terceira verifica notas num livro de bolso; a quarta fita o mapa do trajeto no painel em frente; e a quinta é que não faz absolutamente nada. Ela olha a vida.

Ah, mas minha pobre e infeliz mulher, participe do jogo - por nossa causa, dissimule!"



VW

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

claRISSE mais eu

Descobri que há muito venho me faltando. É dolorido saber-se sem si. Ausente de si. Saber que por muito tempo busquei num outro tudo que estava no lugar certo. Tudo que não me dei o trabalho de buscar. Uma fuga. É um não gostar de si. Ao espelho: um não. Esse cabelo novo me fez mais real. Mais concreta. Mais alma. Deixei de viver por cima e o baixo da vida me foi apresentado. Ainda não me adaptei, mas percebi que antes eu era pura mentira. Como pode algo ser puro e mentiroso ao mesmo tempo? Pode, porque considero puro tudo que é fruto do gesto em si, do inconsciente que te dá uma ordem, já a mentira não, a mentira é ela propriamente e maliciosa, como um trocador que rouba 10 centavos de troco. Não gosto da pureza exacerbada. Tenho medo. Pois o puro é branco, e branco mancha com facilidade. É preciso lavar com uma freqüência insuportável. Apenas 1 vez de uso. Já com o preto, podemos fingir limpeza à vontade. Se parece com a mentira. A preocupação com o português e com o vocabulário de alguém com apenas 21 anos me fazem escrever com uma racionalidade nojenta. Não me alcanço. O medo de novo. Medo do erro pra mim e por mim. Pelo menos agora estou tentando não me parar, mas minha mão as vezes respira com o meu cérebro ainda ditando. Meu corpo é forte demais pra minh' alma. Por isso tantos equívocos. Agora, corpo, se me dá licença preciso ver minha alma. Ir ao meu encontro. Saber-me. Com ou sem cabelo arrumado. Chega de escrever sobre um outro que não vem. Ele sou eu. Eu tava de féria na Bahia, mas agora eu voltei cheia de vontade de mim. Fiquei assim por causa de um outro. E o agradeço por ter me permitido tal viagem, tal volta, tal passagem. É impossível saber-se sem um passado legitimo e bem marcado. Esse apego me irrita em demasia.Só hoje eu consegui parir o feto dele. O seu filho hoje nasceu. E é diferente saber-se com um filho. Esse filho sou eu. Fui mãe e filha mas sua, sempre sua. Agora não. Tenho o mundo. Depois dessa luz o mundo pode ser meu de novo. Só meu. Me sinto livre. Preciso voar com as minhas asas. Não quero mais romancear falando do que fui. Quero ser com legitimidade. Nem sei se sei. Mas sinto, e isso me basta. Asas. Como alguém que toma um gole de água por que é o suficiente. Estou rindo. Dei pra rir. É tão bom encontrar consigo. Não consigo parar de rir. Não posso, não quero mais parar de ser.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

a quinta de virgínia

quero ser a quinta não pra chegar depois, mas pra não ser aquela que ajeita o cabelo, fuma um cigarro, fala alto ou usa maquiagem pra parecer. quero ser o silêncio, casar com ele. ser aquela que fica no canto, que acontece por uma questão de necessidade, pra não me preocupar com chegadas, pra chegar manso, sentar com calma e falar o bastante pra ser ouvida.a quinta: a simplicidade de não ser muito, nem pouco.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

água de clarisse

"Mesmo para os descrentes há o instante do desespero que é divino: a ausência do Deus é um ato de religião. Neste mesmo instante estou pedindo ao Deus que me ajude. Estou precisando. Precisando mais do que a força humana. Sou forte mas também destrutiva. O Deus têm que vir a mim já que não tenho ido a Ele. Que o Deus venha: por favor. Mesmo que eu não mereça. Venha. Ou talvez os que menos merecem mais precisem. Sou inquieta e áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor.

Às vezes me arranha como se fossem farpas.
Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto continuo inquieta é porque preciso que o Deus venha. Venha antes que seja tarde demais"


C.Lispector
adeno para o futuro (continuação, no caso de tudo isso não ser um estado presente):
"Corro perigo como toda pessoa que vive. E a única coisa que me espera é exatamente o inesperado. Mas sei que terei paz antes da morte e que experimentarei um dia o delicado da vida"